A ORAÇÃO NA REGRA DO CARMO
Contexto Histórico-Religioso
Para a melhor compreensão
da PROPOSTA de ORAÇÃO feita pela Regra do Carmo
é necessário situá-la no contexto que apresenta
características muito concretas.
Nos séculos XI a XIII aconteceram na Igreja e na Sociedade
profunda crise e transformações, acarretando mudanças
econômicas, sociais e políticas. Estas, juntamente
com outros fatores próprios da vida da Igreja daquela época,
influenciaram profundamente a maneira de viver a FÉ e de
anunciar o Evangelho.
Face a esta situação de mudanças com fortes
contrastes de valores e contra-valores presentes na vida das pessoas
e grupos, nasce forte reação que vai assumindo aspectos
diversos. Anseios e tentativas de reforma na Igreja e de paz e
de concórdia na Sociedade estimulam a formação
de grupos para combater os contra-valores. Desta forma, surgem
vários movimentos: ordens mendicantes, grupos e indivíduos
que levam uma vida eremítica, movimentos de penitência
e de pobreza e a incrementação do fenômeno
das peregrinações.
Nestes movimentos estão valores comuns: o contato vivo
com a Palavra de Deus; o valor social e espiritual da pobreza
cristã; a pregação itinerante, seja doutrinal
(de cunho oficial da Igreja), seja popular; a revalorização
da humanidade de Cristo e de Cristo pobre como centro da própria
existência e o desenvolvimento da “vida apostólica”
(“vida conforme a Comunidade primitiva de Jerusalém
e dos apóstolos com Jesus) como ponto de partida para a
vida dos religiosos.
O fermento eclesial surgido com a vida penitente, o eremitismo,
as peregrinações, etc., vai gerar um fenômeno
típico da época das Cruzadas e desenvolve, através
das Romarias a Jerusalém uma espiritualidade chamada “CAMINHO”.
A peregrinação física a Terra Santa é,
então, a culminância da vida eremítica penitente
e
peregrina, que vai vivendo esta espiritualidade com base em três
momentos que simbolizam o CAMINHO:
l. HABITAR —> exprime o assumir os valores do deserto,
do êxodo (desapego, sobriedade
de vida, pobreza evangélica, trabalho, vida no provisório,
desinstalação,
simplicidade nas estruturas, a expatriação, a acolhido,
aos outros).
2. LEVANTAR-SE —> o peregrino permanece nos valores,
mas, não se instala fisicamente
no mesmo lugar. Há o momento do “levantar-se”.
No contexto da recuperação da Terra Santa isto simboliza
o assumir a milícia cristã com as ARMAS ESPIRITUAIS
(oração, virtudes, mortificação, etc.)
3. CAMINHAR -—> trata-se de ir à procura de Jerusalém
e, por voto, lá permanecer
perpetuamente. Fixar-se na Terra Santa. Assim, através
da “Espiritualidade do Caminho” a peregrinação
à Jerusalém, com seus dois momentos entrelaçados
- o espiritual e o material - produz os frutos de união,
paz e concórdia. É neste contexto da Espiritualidade
do Caminho que se situa a FORMAÇÃO e a EXPERIÊNCIA
CARISMÁTICA do primeiro grupo dos CARMELITAS. Este grupo
se compõe de cristãos que fazem voto de fazer a
romaria a Jerusalém e aí permanecer pelo resto de
suas vidas, sob a orientação de um líder,
a fim de prestar “SERVIÇO” a Cristo, na sua
Terra.
No texto da Regra do Carmo encontram-se, nos capítulos
7, 14 e 10 elementos desta
“Espiritualidade do Caminho”.
Situando a PROPOSTA da ORAÇÃO na Regra do Carmo,
neste contexto onde ela surgiu,
fica bastante evidente que esta proposta tem unificados um duplo
sentido:
- COMPROMISSO CONCRETO (formas, estruturas)
- EXIGÊNCIA de ATITUDE ENCARNADA na REALIDADE (na qual se
esta formando a Igreja)
A ORAÇÃO NA VIDA
CARMELITANA
Portanto, conforme a Regra (cap.
VII “dia e noite”) a oração é
uma ATITUDE que deve orientar e favorecer a busca de DEUS no quotidiano.
Isto exige um caminho de INTERIORIZAÇÃO.
2.1.2 - Proposta de Oração na Regra do Carmo
Alem de algumas normas e estruturas para a oração
a Regra desenvolve a seguinte proposta:
1° Perspectiva Cristocêntrica - (Prólogo - cap.
10)
Era seu sentido a expressão “viver em obséquio
de Jesus Cristo” (cf. 2 Cor 10,5) tem conotação
bíblica aplicada a época medieval: coloca Cristo
como o início e o fim de cada realidade carmelitana. O
centro vivencial da proposta é a EUCARISTIA (cf. cap. 10),
compreendida não como um mero rito, mas, como realidade
que CONSTROE A IGREJA, significada no simbolismo da CAPELA construída
em meio às celas.
A reunião dos irmãos, convergindo na IGREJA e sua
volta às celas, na interpretação
simbólica indica a necessidade de:
- colocar a própria vida na Eucaristia
- tomar os frutos da Eucaristia para a vida quotidiana que deve
ser sempre expressão de
construção da Igreja.
2º - Oração, atitude existencial e dinâmica
Para a vida carmelitana a proposta de oração é
fundamentalmente e antes de tudo, um convite a aprendizagem e
desenvolvimento de uma ATITUDE de ESCUTA que não consiste
num simples ouvir, mas, sobretudo, no acolhimento da Palavra,
dando lugar a sua atuação na própria vida.
É a repercussão da Palavra na atuação.
Esta ATITUDE EXISTENCIAL de busca e escuta de Deus é o
aspecto mais autentico da
proposta de oração feita pela Regra.
A oração, portanto, antes de ser uma prática
ou exercício, é atitude dinâmica, no sentido
de “VACARE DEO” ou seja, da atenção
contínua à dimensão religiosa humana total
que se abre a relação dialógica e amorosa
com Deus.
3º - Oração Individual (cap. 7)
A oração individual deve brotar do contato continuo
com a Bíblia e expressar-se em formas
concretas. Assim, o cap. 7º sublinha, portanto, a importância
fundamental da “Lectio Divina” entre as formas individuais
que cada carmelita pode escolher segundo a própria necessidade.
Este contato com a Bíblia que marcou de forma muito característica
a Ordem, em seu início, deve ser, não apenas especulativo,
mas, envolver o homem todo, desenvolvendo-lhe a capacidade de
“degustar” o sentido mais profundo da Escritura e
de abrir-se à contemplação num ardente dialogo
orante com o Senhor presente na própria vida.
4 ° - Oração Litúrgica (cap. 8)
O aspecto litúrgico é outro elemento da oração
carmelitana. A prescrição da Regra quanto a
celebração das Horas Canônicas, vista a luz
do contexto da concessão pontifícia, no século
XIII, deve ser entendida como um SERVIÇO PASTORAL que supõe
e coenvolve a participação do povo, fazendo portanto
parte do ministério sacro da época.
5° - Eucaristia quotidiana (cap. 10) O elemento forte e central
da proposta carmelitana de oração e a celebração
da EUCARISTIA. É o momento de culminância da oração.
No espírito da Regra a participação na EUCARISTIA
não pode consistir simplesmente na celebração
de um rito. Exige a centralização de cada realidade
do quotidiano e da própria vida eclesial, em Cristo, a
fim de “reunir em Cristo todas as cousas” (Ef 1,10)
6º - Equilíbrio entre a Oração Individual
e Litúrgica
O esquema mais amplo, utilizado no texto da Regra para unificar
toda a vida do Carmelita em torno de Cristo (cf. as disposições
das várias partes do cap. 10) a oração individual
e a 1itúrgica não se colocam em interação
conflitiva, mas, numa equilibrada inter-relação.
7° - Meios para crescer no caminho da oração
(cap. 12,13 e 16)
A Regra tem a preocupação de oferecer algumas estruturas
e meios fundamentais para
desenvolver o caminho da Oração. Estes são:
o silêncio, a solidão, a mortificação
corporal e o trabalho.
A reflexão posterior sobre estes meios levou a interiorização
dos valores por eles gerados: solidão sonora, silêncio
interior, desapego, etc.
8° - Oração Encarnada (cap. 14)
A atitude de escuta da Palavra de Deus e a contemplação
do Senhor exige, como condição
adequada, a prática recomendada no capítulo das
armas espirituais. Neste contexto a atividade apostólica
(e não apenas a vida interior) passa a ser uma decorrência
natural da vida de oração.
9º - Discernimento Comunitário (cap. 11)
O desenvolvimento da proposta de oração com atenção
à “saúde das almas” (c. 11) requer
uma avaliação freqüente do caminho feito.
10º - Fidelidade generosa e discrição
Segundo o convite feito na conclusão da Regra, a vivência
da proposta de oração no Carmelo pede uma FIDELIDADE
DINÂMICA ou seja, não guardar os valores apenas em
forma de lembrança, mas, vivenciá-los, buscando,
sobretudo; a qualidade e não a quantidade nas formas. Isto
exige CONTINUIDADE GENEROSA.
Frei Emanuel Boaga, O.Carm.