EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA DE FRADE CARMELITA NO TÍMOR – LESTE

Frei Antonio Silvio

----------Algumas pessoas me perguntaram sobre o terremoto no início da semana passada aqui em Dili; eu fiquei impressionado com a repercussão que deram aí. Na verdade foi um pequeno chacoalho que a mim deixou apreensivo, mas que não causou nenhum alarde na cidade.
----------Aqui no Timor já se passaram duas semanas desde a minha chegada e foram bem cheias, além dos trabalhos ainda tenho dificuldades com o Tétum e o português, como já disse, é bem pouco falado. Os estudantes daqui vêem o português como uma língua de escola, como eles dizem de “teoria”. Até o jornal da capital que antes tinha artigos em português e indonésio, além do Tétum, agora só tem Tétum e alguns artigos em indonésio. Mas continuo atendendo ao pedido de ensinar e ajudar os nossos estudantes com a língua de Camões e Machado de Assis. Afinal de contas concordo com Caetano Veloso, quando espera que a nossa língua seja nossa frátria, nem pátria, nem mátria.
----------No final de semana passada as Irmãs Carmelitas tiveram a alegria da profissão de quatro noviças. Houve uma bonita missa e depois ofereceram um almoço a todos os que estavam presentes na igreja e era muita gente, acho que mais de quinhentas pessoas!
----------Fui também com elas, as Irmãs Carmelitas, que trabalham com clínicas, visitar uma comunidade distante há mais ou menos uma hora e meia daqui, em quilômetros falamos de uns 40 km, mais as estradas tornam a viagem uma aventura. Ali as irmãs contaram as dificuldades de ter assistência de médicos, pois os médicos cubanos, que vieram em ajuda ao governo do Timor, fazem apenas o atendimento nos locais das clínicas do estado e não se importam de visitar os doentes que não podem chegar até lá. Dizem que são bons conhecedores, mas bem pouco sensíveis aos sentimentos de dor e pudor dos doentes.
----------Bem, voltando ao assunto, fui com elas visitar uma senhora que mora há uns 200m da clínica delas, e 250 da clínica do estado (imagine que tem gente naquela comunidade que mora há mais de 3 km montanha acima!). Uma senhora de 62 anos, aparentando muitos mais, que tem um enorme tumor benigno pendurado na altura do quadril esquerdo. É algo como um melão pequeno, e que a senhora resolveu enfiar uma faca “para esvaziar” e que agora está sangrando pouco, mas continuamente. Conversei com ela sobre a possibilidade de ir ao hospital e operar, pois o estado paga o tratamento, mas não o transporte. Daí que ela e as filhas se recusam a ir, pois não têm condições para ir, menos ainda de ficar na capital com ela. Além disso, têm como convicção que quem vai ao hospital morre, e depois fica muito caro trazer o corpo da pessoa para o enterro. A senhora, e quase todos os doentes da região, recusam-se a ir para não dar trabalho aos filhos, pois têm certeza de que “no hospital se morre”, preferem viver e morrer em casa. Embora os hospitais da capital sejam modestos, mas bem preparados para o que é possível fazer num país pobre como este.
----------Há muitos casos de câncer de boca, garganta e mama. Além do fumo há o costume de mascar uma baga vermelha que é secada com cal e que pouco a pouco corrói a boca das pessoas, mas a força cultural do costume de mascá-la é mais forte que as conseqüências bem graves. Há muita tuberculose e malária. As Irmãs contam da dificuldade de conseguir remédios, que são caríssimos por aqui, o que também já foi noticiado pelo telejornal. Eu francamente não entendo por que a Cruz Vermelha, ou outros órgãos ligados a ONU não conseguem encontrar uma solução. Contudo é assim aqui como na África. O mais duro é saber que não se encontram soluções fáceis para estes problemas aqui. Aqui não se podem fazer campanhas de arrecadação ou de coleta de fundos, pois não há condições em todo o país. O Timor é o país mais pobre da Ásia, disputando o lugar com o Afeganistão. Tenho acompanhado os noticiários e vejo que o governo tenta fazer o que pode, mas às vezes esbarra no impasse: “o que fazer?”.
----------Sexta-feira participei o dia todo de uma atividade promovida pela Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Dili, da qual nosso confrade frei Aniceto é membro da coordenação geral. Foi muito bom e proveitoso o dia. Apresentaram boas posições e estratégias para barrar a violência, que ainda paira o país depois da crise de 2006. Mas eu fiquei com a pergunta dentro de mim: “E como parar com a violência desta extrema pobreza que se vê em toda parte?” – Era um dia de conferências para celebrar o dia internacional da Paz, dia 21 de setembro. Escolheram como tema: HAMUTUK HO MAROMAK ITA: HAKOAK, HABURAS NO HABELAR KULTURA BA DAME. (Juntos com Deus: abraçar, cultivar e espalhar a cultura da paz). Eles buscam com muito empenho barrar a violência social, também buscam promover e incentivar uma atitude proativa nas pessoas e grupos em busca de uma sociedade mais justa e pacífica. O encontro foi apoiado economicamente pelas embaixadas dos EUA e Noruega. No momento de abertura chamou-me a atenção as mensagens diplomáticas: Noruega – “apoiamos esta comissão que tenta barrar a violência social e promover a paz, certos de que a paz não é apenas a ausência de conflitos e guerras, mas é também a conquista social de boa saúde, de boa educação, de empregos e desenvolvimento econômico”; EUA – “apoiamos esta comissão que tenta barrar a violência social e promover a paz, e o EUA como nação amiga do Timor está aqui para contribuir ajudando a formar melhor e tornar mais profissional a polícia e o exército do Timor, e em muitas outra iniciativas que se fizerem necessárias”. Enfim, paz para Noruega é antes de tudo vida digna, para os EUA a paz é antes de tudo ter as forças armadas preparadas. É bem a ideologia do império desde o tempo dos romanos que já diziam: se queres a paz, prepara-te para a guerra. Enfim, só dando um sorriso e entender quando a gente se pergunta por que depois alguém acaba virando socialista. Mas, mesmo com esta visão eles têm dado ajuda ao Timor.
----------O coordenador da pastoral da juventude da Diocese me contava da crise dos jovens que não vêm futuro profissional à vista. Não têm empregos suficientes, não têm condições de se freqüentar escolas, que são poucas e distantes. Ainda bem que religiosos como os salesianos têm algumas escolas técnicas e agrícolas. Também os carmelitas investem pessoas e dinheiro na região de Zumalai com este fim educacional técnico. E as nossas irmãs têm casas de acolhimento de crianças e adolescentes para que possam estudar, pelo menos o nível fundamental. Existem também outras atividades de religiosos como os jesuítas, canossianas, e outros grupos. Isso dá alegria de ver que a Igreja faz a sua parte nesse processo de buscar um futuro de paz para o Timor.
----------Pois bem eu dizia daquele líder jovem falava de jovens revoltados e deprimidos, mas não se vê horizontes abertos imediatos. Cada vez mais os jovens nesta situação ficam expostos à tentação das gangues, dos pequenos roubos e dos vícios, o mais comum é o alcoolismo. A Igreja busca criar ocasiões de encontros e atividades lúdicas, mas falta muitas vezes dinheiro para subvencionar estas atividades. Alguns países asiáticos, como a Coréia do Sul, o Vietnam e a China oferecem preparação profissional e também alguns postos de trabalho nestes países aos Timorenses, mas é sempre uma oferta mínima para um problema imenso. Contudo, tudo que se faz de bom é um motivo pra que Deus seja louvado!
----------No fundo agradeço a Deus pelo fato de ser confrontado com tudo isto e poder assim rever, refletir e confrontar a minha vida, certezas, crenças e objetivos de vida. Outro dia pensava na frase que me disse um padre há 20 anos em Joinville: “é por causa do sofrimento destes pobres que Deus continua nos socorrendo e atendendo nossas preces!” É o mesmo uma consolação pedagógica, como diz São Paulo na segunda carta aos Coríntios 1,3-4: Seja bendito nosso Deus e Pai de Jesus Cristo que nos consola em nossas aflições para que também nós sejamos consoladores de nossos irmãos e irmãs. Como eu já disse antes: este choque cultural e confronto com uma pobreza desconcertante é sempre um momento crítico de crescimento pessoal.
----------Vou ficando por aqui lhes deixando um grande abraço e o meu desejo de saúde e paz pra vocês e as pessoas que lhes são queridas.

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Irmã Carmelita com seus pais.


Xanana Gusmão
e eu

Timor-Leste

Experiência Missionária de Frei Antonio Silvio

--------Olá Amigos,

--------Estou terminando o mês em Dili e semana que vem vou para Zumalai. Ficarei lá até novembro. É uma região mais rural, o acesso é muito acidentado e com poucas facilidades. Talvez em uma ou duas semanas possamos ter energia elétrica por tempo maior, pois alguns grupos australianos ligados aos carmelitas doaram e montaram painéis solares para obter energia elétrica. Até agora funcionavam com gerador a disel que funcionava diariamente por quatro horas apenas.

--------Lá estão previstas várias visitas às pequenas aldeias distantes do centro da paróquia. Acho que vai ser muito bom.

--------No Timor a situação vai indo bem, aparentemente há calma, mas há também muita inquietação com os vários problemas como falta de trabalho, de saúde, educação, de estradas, entre outras. Sábado passado as forças australianas de estabilização deixaram o país. Eles chegaram aqui depois do atentado ao presidente em 11 de fevereiro passado.
Há quem tenha me perguntado o que poderia fazer para ajudar aqui. Bem eles precisam de muitas coisas, entre estas pedem sempre livros religiosos e bíblias em português. No passado vi a dificuldade de mandar as coisas para o Timor por meio do correio ou transportadoras. Há muita burocracia e o custo, acrescido sempre pela corrupção de funcionários, é muito maior que o envio. Eu conversei com os padres aqui e achamos como melhor solução enviar as coisas para o escritório do provincial dos carmelitas na Austrália. Quase semanalmente vêm pessoas da Austrália para o Timor como voluntárias, e poderiam trazer pouco a pouco os livros para aqui. Assim quem quiser pode mandar principalmente um dos dois seguintes livros: evangelho pastoral, que custa 6 reais na Livraria da Paulus, seria bom que chegassem por aqui uns 50 exemplares, e também o livro de Oração das Horas, este já é bem mais caro, custam 82 reais cada, e deste precisariam de um 30 exemplares. Acho que quem puder compre em mande pelo correio para o endereço ababaixo, ali a irmã Rosemary encontrará portadores para o Timor. Além desses dois livros outros livros e revistas de religião, sobretudo carmelitas, são bem vindos.

--------Acho melhor quem puder comprar alguns livros mandar em pequenos pacotes, de um a quatro livros no máximo. Eu penso que não é conveniente mandar um caixa com muitos livros por problemas de alfandega no Brasil e fora, mas é sempre bom perguntar. O endereço é:

CARMELITES T.L.
Sr. ROSEMARY PATTERSON
PROVINCIAL OFFICE
75 WRIGHT STREET
MIDDLE PARK VIC 3206
AUSTRALIA

--------Bem, fico por aqui e mando abraços a todo mundo aí, certos de estarmos unidos na oração.















 
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