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Alguns Manuscritos

  • O orvalho divino ou o leite virginal de Maria

    Meu Doce Jesus, no seio de tua Mãe, Tu me apareces, todo radiante de Amor. O Amor, eis o inefável mistério Que Te exila da Celeste Morada. Ah, deixa que eu me esconda sob o véu Que Te oculta a todo olhar mortal: Bem junto a Ti, ó Estrela Matinal! Vou prelibar um gostinho de céu. No despertar de uma nova aurora, Quando do sol vêem-se os primeiros raios, A pequena flor que a desabrochar começa Espera do alto céu precioso bálsamo. Este é o momento do salutar orvalho Que, cheio de doçura em seu frescor, Faz borbulhar a seiva em cada galho E nos botões faz entreabrir-se a flor. Tu és, meu bom Jesus, flor primorosa Que assim contemplo apenas entreaberta; Tu és, Jesus, a cativante rosa, Rubro botão de graça que desperta! Os braços puros de tua Mãe querida São Teu berço, trono real! Teu doce sol é o seio de Maria, E o orvalho é o Leite Virginal!… Meu Bem-Amado, Irmão querido, Todo o futuro eu vejo em Teu olhar. Pela ânsia de sofrer sempre impelido, Cedo, por mim, Tua Mãe irás deixar. Mas sobre a cruz, ó Flor Desabrochada, Eu reconheço teu perfume matinal Eu reconheço o orvalho de Maria Teu sangue divino é o Leite Virginal. Esse orvalho se oculta no santuário, O Anjo do Céu o contempla jubiloso, Oferecendo a Deus sua sublime oração, Dizendo, com São João: “Ei-lo!” Sim, ei-lo, o Verbo feito Hóstia, Sacerdote eterno, Cordeiro Sacerdotal, O Filho de Deus é o Filho de Maria, O Pão do Anjo é o Leite Virginal. O serafim se nutre da glória E perfeito, no céu, é seu deleite, Mas eu, pobre criança, no cibório Vejo só a aparência e a cor do leite. Mas é o leite que convém à infância E de Jesus o amor é sem rival. Ó terno Amor! Insondável Potência, Minha Hóstia branca é o Leite Virginal! 2 de fevereiro de 1893
  • Meu canto de hoje

    Minha vida é um instante, um rápido segundo, Um dia só que passa e amanhã estará ausente; Só tenho, para amar-Te, ó meu Deus, neste mundo, O momento presente!… Como Te amo, Jesus! Por Ti minha alma anseia; Sejas meu doce apoio por um dia somente. Reina em meu coração: Teu sorriso incendeia Agora, no presente! Que me importa, Senhor, se no futuro há sombra? Rezar pelo amanhã? Minha alma não consente! Guarda meu coração puro! Cobre-me com tua sombra Agora, no presente! Se penso no amanhã, temo ser inconstante, Vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado. Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante Agora, no presente! Devo ver-te em breve na praia eterna, Ó Piloto Divino, cuja mão me conduz. Sobre as vagas em fúria, guia minha navezinha Agora, no presente. Ah! Deixa-me, Senhor, em tua Face esconder-me. Para não ouvir o mundo a clamar futilmente. Dá-me Teu amor, conserva-me tua graça Agora, no presente. Junto ao Teu Coração divino, esqueço o que se passa, Não temo mais a noite em ameaça. Dá-me em Teu Coração, Jesus, um lugar, Agora, no presente. Pão vivo, Pão do Céu, divina Eucaristia, Ó mistério sagrado! que o Amor produziu… Vem morar no meu coração, minha branca Hóstia, Agora, no presente. Digna-Te unir-me a Ti, Vinhedo Consagrado, Para que meu ramo assim, com frutos, se apresente E eu vou Te oferecer algum cacho dourado, Senhor, Agora, no presente. Esse cacho de amor, cujos grãos são as almas… Só tenho para formá-lo este dia que foge. Ah! Dá-me, Jesus, de um Apóstolo o ardor, Agora, no presente. Virgem Imaculada, tu és minha Doce Estrela. Que me dás Jesus e a Ele me unes; Deixa-me, terna Mãe, repousar sob teu véu Agora , no presente. Anjo da minha guarda, cobre-me com tuas asas, Clareia com teus fogos a estrada que sigo; Vem dirigir meu passo e auxiliar-me, te peço, Agora, no presente. Quero ver-Te sem véu, Senhor! Sem nuvem, sua, ainda exilada, longe de ti, languesço. Não me escondas, meu Deus, Tua amável Face Agora, no presente. Já voarei ao céu para que aí profira Meus louvores a Ti, no dia sem poente, Quando, então, cantarei em angélica lira O Eterno presente!…
  • Canto de gratidão a Nossa Senhora do Monte Carmelo

    Desde o começo, ó Mãe, de minha vida, Vós me tomastes entre vossos braços E, a partir desse dia, Mãe querida, Sempre me protegeis aqui embaixo. Para me conservar sempre inocente, me reservastes um ninho sagrado, Guardando minha infância ternamente À sombra de claustro abençoado. Anos mais tarde, já na juventude, Escutei de Jesus o suave apelo E Vós, com maternal solicitude, Me mostrastes o rumo do Carmelo. “Pelo teu Salvador vem imolar-te” — Me dizíeis, então, com muito amor —, “Serás feliz comigo em qualquer parte, Vem imolar-te por teu Salvador!” Junto de vós, ó Mãe tão adorada, Descansou, afinal, meu coração; Eu desta terra não desejo nada, Só em Jesus acharei consolação! Se, por vezes, caio na tristeza, E vãos temores ousam me assaltar, Sempre, Mãe, sustentando-me a fraqueza, Dignai-vos vir a fim de me abençoar. Concedei-me ser sempre fiel A meu Jesus, divino Esposo! Que, um dia, sua doce voz me chame A voar para o seio dos eleitos. Então, sem mais exílio ou sofrimento, Hei de entoar no Céu A canção de meu reconhecimento, Amável Rainha do Carmelo! 16 de julho de 1894
  • A nosso pai, São José

    José, tua vida admirável Na pobreza decorreu, A contemplar sempre a beleza De Jesus e de Maria. José, ó terno Pai, Protege nosso Carmelo: Que tuas filhas, neste mundo, Saboreiem sempre a paz do Céu! O Filho de Deus, na infância, Sendo a ti sempre submisso, Quantas vezes, bem feliz, Em teu colo repousou. Como tu, na solidão, Outro plano não temos nem desejo Além de sempre agradar E de servir a Jesus e a Maria. Nossa Mãe, Santa Teresa, Com muito amor te invocava E todas as suas preces Dizia que escutavas. Findo o exílio desta vida, Temos a doce esperança De que, com nossa Mãe querida, Iremos ver São José. Abençoa, terno Pai, O nosso humilde Carmelo; Após o exílio da terra, Ajunta-nos lá no céu!
  • O átomo do Sagrado Coração

    Teu átomo, Divino Coração, Te consagra sua vida; Esta é a sua paz feliz: Só dar-Te prazer, Senhor. Estou à Tua porta De dia e de noite, Tua graça me leva; Viva o Teu amor!… Esconde a Tua glória, Me faze um bom ninho No santo cibório, De noite e de dia. Tua asa, ó que encanto, Se faz meu abrigo; E quando eu acordo, Jesus, me sorris. Teu olhar me incendeia E é meu único amor; Pra sempre, Jesus, Consome minha alma. Transborda ternura Tua voz que me encanta; Só o Teu Coração, Doce Amigo, me impele!… Tua mão me consola, Me serve de apoio, Me traz a coragem Ao peito que sofre. De todo cansaço Consolas minha alma. Sê Tu o bom pastor Do pródigo filho. Que cena tão suave, Prodígio de amor: É só no sacrário Que eu fico pra sempre. Bem longe do mundo Sem ter nele apoio, Tua graça me inunda, Meu único Amigo!… Oh! suave martírio: Me abraso de amor! Por Ti eu suspiro, Jesus, todo dia!…
  • Canto de gratidão da noiva de Jesus

    Tu me escondeste para sempre em Tua Face!… Escuta minha voz, ó divino Jesus; Venho cantar a inexprimível graça De ter sofrido e carregado a cruz. Muito tempo bebi no cálice do pranto E partilhei a taça de tuas dores, Descobri que sofrer tem seu encanto E pela cruz se salvam pecadores. Pela cruz foi que cresceu a minha vida E nela achei um horizonte lindo. Nos raios de Tua Face tão querida Meu frágil coração vive subindo. Ouço Tua voz, meu Bem-Amado, em tom macio e terno: “É uma nova estação que se inicia; Vem”, me dizes, “chegou o fim do inverno, A noite finalmente virou dia”! “Mantém os olhos ao céu sempre elevados E, em dois tronos, verás, na eternidade, Teu Pai e tua Mãe, seres amados Dos quais te veio a felicidade!…” “Como um instante fluirá a tua vida E estás perto do céu neste Carmelo; Por Meu Amor é que foste escolhida E no céu te reservo um trono belo!” 5 de fevereiro de 1895
  • Viver de amor

    No entardecer do Amor, falando sem figuras, Assim disse Jesus: “Se alguém me quer amar, Saiba sempre guardar minha Palavra Para que o Pai e Eu o venhamos visitar. Se do seu coração fizer Nossa morada, Vindo até ele, então, haveremos de amá-lo E irá, cheio de paz, viver Em Nosso Amor!” Viver de Amor, Senhor, é Te guardar em mim, Verbo incriado, Palavra de meu Deus, Ah, divino Jesus, sabes que Te amo sim, O Espírito de Amor me abrasa em chama ardente; Somente enquanto Te amo o Pai atraio a mim. Que Ele, em meu coração, eu guarde a vida inteira, Tendo a Vós, ó Trindade, como prisioneira Do meu Amor!… Viver de Amor é viver da Tua vida, Delícia dos eleitos e glorioso Rei; Vives por mim numa hóstia escondido, Escondida também por Ti eu viverei! Os amantes procuram sempre a solidão: Coração, noite e dia, em outro coração; Somente Teu olhar me dá felicidade: Vivo de Amor! Viver de amor não é, nesta terra, A nossa tenda armar nos cumes do Tabor; É subir o Calvário com Jesus, Como um tesouro olhar a cruz! No céu eu viverei de alegrias, Quando, então, todo sofrimento acabará; Mas, enquanto exilada, quero, no sofrimento Viver de Amor! Viver de Amor é dar, dar sem medida, Sem reclamar na vida recompensa. Eu dou sem calcular, por estar convencida De que quem ama nunca em pagamento pensa!… Ao Coração Divino, que é só ternura em jorro, Eu tudo já entreguei! Leve e ligeira eu corro, Só tendo esta riqueza tão apetecida: Viver de Amor! Viver de Amor, banir todo temor E lembranças das faltas do passado. Não vejo marca alguma em mim do meu pecado: Tudo, tudo queimou o Amor num só segundo… Chama divina, ó doce fornalha, Quero, no teu calor, fixar minha morada E, em teu fogo é que canto o refrão mais profundo: “Vivo de Amor!…” Viver de Amor, guardar dentro do peito Tesouro que se leva em vaso mortal. Meu Bem-Amado, minha fraqueza é extrema, Estou longe de ser um anjo celestial!… Mas, se venho a cair cada hora que passa, Em meu socorro vens, A todo instante me dás tua graça: Vivo de Amor! Viver de Amor é velejar sem descanso, Semeando nos corações a paz e a alegria. Timoneiro amado, a caridade me impulsiona, Pois te vejo nas almas, minhas irmãs. A caridade é minha única estrela E, à sua doce luz, navego noite e dia, Ostentando este lema, impresso em minha vela: “Viver de Amor!” Viver de Amor, enquanto meu Mestre cochila, Eis o repouso entre as fúrias da vaga. Oh! não temas, Senhor, que eu te acorde, Aguardo em paz a margem dos céus… Logo a fé irá rasgar seu véu, Minha esperança é ver-te um dia. A Caridade infla e empurra minha vela. Vivo de Amor!… Viver de Amor, ó meu Divino Mestre, É pedir-Te que acendas teus Fogos Na alma santa e consagrada de teu Padre. Que ele seja mais puro que um Serafim dos céus!… Tua Igreja imortal, ó Jesus, glorifica Sem fechar Teu ouvido a meus suspiros; Por ela tua filha aqui se sacrifica, Vivo de Amor! Viver de Amor, Jesus, é enxugar Tua Face E obter de Ti perdão para os pecadores. Deus de Amor, que eles voltem à Tua graça E para todo o sempre teu Nome bendigam. Ressoa em meu peito a blasfêmia; Para poder apagá-la estou sempre a cantar: “Teu Nome sagrado hei de amar e adorar; Vivo de Amor!…” Viver de Amor é imitar Maria, Banhando, com seu pranto e com perfumes raros, Os pés divinos que beijava embevecida, Para, depois, com seus cabelos enxugá-los… Levanta-se, a seguir, quebra o vaso E Tua doce Face perfuma… Mas Tua Face eu só perfumo, bom Senhor, Com meu Amor! “Viver de Amor, estranha loucura”, Vem o mundo e me diz, “pára com esta glosa, Não percas o perfume e a vida que é tão boa, Aprende a usá-los de maneira prazerosa!” Amar-Te é, então, Jesus, desperdício fecundo!… Todos os meus perfumes dou-te para sempre, E desejo cantar, ao sair deste mundo: “Morro de Amor!” Morrer de Amor é bem doce martírio: Bem quisera eu sofrer para morrer assim… Querubins, todos vós, afinai vossa lira, Sinto que meu exílio está chegando ao fim! Chama de Amor, vem consumir-me inteira. Como pesa teu fardo, ó vida passageira! Divino Jesus, realiza meu sonho: Morrer de Amor!… Morrer de Amor, eis minha esperança! Quando verei romperem-se todos os meus vínculos, Só meu Deus há de ser a grande recompensa E não quero possuir outros bens, Abrasando-me toda em seu Amor, A Ele quero unir-me e vê-Lo: Eis meu destino, eis meu céu: Viver de Amor!!!… 5 de fevereiro de 1895
  • Quem tem Jesus tem tudo

    Desprezando as alegrias desta terra, Eu me tornei prisioneira; Vi que todo prazer é passageiro, Minha felicidade és Tu somente, Senhor!… Sob os meus passos morre a erva, Murcha a flor em minha mão; Jesus, quero correr pelos Teus prados, Nos quais não serão notados Meus passos!… O Teu amor é só o que me arrasta E o meu rebanho deixo na campina; Não me dou ao trabalho de guardá-lo, Pois quero pertencer a este meu novo Cordeiro. És o Cordeiro, ó meu Jesus, que eu amo E Tu me bastas, ó meu bem supremo! Em Ti eu tenho o céu, a terra e tudo; A flor que colho, meu divino Rei, És Tu!… A natureza bela tenho em Ti, Tenho o arco-íris e a neve branca e pura, Ilhas ao longe e maduras searas, Borboletas e a alegre primavera Dos campos. Tenho o barco que deixa suas praias, Sulcos de luz dourando ondas e areias; Tenho os raios do sol bordando as nuvens Quando descamba, à tarde, lá no céu Poente. Tu, cuja mão sustenta o mundo inteiro, Que plantas todas as florestas virgens E as tornas, com um olhar, belas, fecundas, Com Teus olhos de amor Tu me acompanhas Pra sempre!… Atraída por uma bela chama, Voa a ela a falena e aí se queima; Assim o Teu amor minh’alma atrai, Até ele é que eu quero assim voar, Queimar-me!… Ouço dizer que, enfim, já se prepara, Ó meu Senhor, a Tua festa eterna; Retiro dos salgueiros a harpa muda, Vou assentar-me sobre os Teus joelhos, Ver-te! Junto de Ti verei também Maria, Os santos e a família que me deste, E, atrás deixando o exílio desta vida, Vou encontrar de novo o lar paterno No céu!…
  • O átomo de Jesus-hóstia

    (Pensamentos da Irmã São Vicente de Paulo versificados por Santa Teresinha a seu pedido) Eu sou um grãozinho de pó Querendo fixar morada Com o prisioneiro do Amor À sombra do Santuário. Minh’alma almeja esta Hóstia Que eu amo acima de tudo. Deus escondido me atrai; Sou o átomo de Jesus… Quero ficar ignorada, Por todo o mundo esquecida, Consolando com o silêncio O Hóspede do cibório. Eu quisera salvar almas, De pecador fazer santo… Concede chamas de apóstolo Ao Teu átomo, Jesus!… Se este mundo me despreza, Me tendo em conta de nada, Inunda-me a paz divina, Tendo na Hóstia sustento. Ao achegar-me ao cibório, Meus suspiros são ouvidos… A minha glória é ser nada: Sou o átomo de Jesus… Às vezes o céu é escuro E o átomo não pode voar; No sacrário ele se esconde, Agarrado à porta de ouro. Então é que a luz divina Que alegra os eleitos todos Vem aquecer, neste mundo, O pobre átomo de Jesus… Aos quentes raios da graça Então o átomo reluz, E à leve brisa que passa Docemente se balança… Oh! que inefável delícia, Quantos dons já recebeu!… Junto à Hóstia ele se ajeita O pobre átomo de Jesus… Fixando-se junto à Hóstia, Em seu sacrário de amor, Assim passa sua vida À espera do último dia, Quando, ao fim das provações, Pondo-se ao lado dos santos, Este grão da Eucaristia Brilhará com seu Jesus.
  • Meu céu na terra

    Jesus, Tua imagem inefável É o astro que guia meus passos. Ah, bem sabes que a Tua doce Face É o céu para mim nesta existência. O meu amor sempre descobre encantos Desta Face que os prantos embelezam. Eu sorrio em meio a minhas lágrimas, Cada vez que contemplo Tuas dores… Quero, para poder-te consolar, Viver ignorada nesta terra!… Esta beleza que tão bem escondes Me revela, entretanto, o Teu mistério Para junto de Ti quero voar!… Minha única Pátria é Tua Face, Ela é também o meu Reino de amor, Ela é minha campina sorridente, Meu encantado sol de cada dia. Ela é o lírio do vale, Tua Face, Da qual se evola o olor misterioso Que consola minh’alma neste exílio E a faz saborear a paz do céu. Ela é minha Doçura, meu Repouso, A minha lira cheia de harmonia… A Tua Face, ó terno Salvador, É esta mirra divina em ramalhete Que sobre o coração quero guardar! Ela é minha única riqueza, A qual, se eu possuir, não peço mais; Escondendo-me nela, sem cessar, Eu serei semelhante a Ti, Jesus. Ah, deixa bem impressa em mim a marca Dos Teus traços repletos de ternura E assim me tornarei logo uma santa E atrairei pra Ti os corações. Para poder aqui armazenar Uma bela colheita bem ceifada, Abrasa-me, Senhor, com Tuas chamas, Dá-me logo, com Teus lábios dourados, O beijo da Eternidade! 12 de agosto de 1895
  • Cântico de uma alma que encontrou seu lugar de repouso

    Neste dia, Jesus, rompes minhas amarras!… É na Ordem bendita da Virgem Maria Que poderei achar os verdadeiros bens. Se abandonei, Senhor, a família querida, Tu, por certo, a encherás de favores celestes; A mim, basta que dês o perdão que dás aos pecadores… No Carmelo, Jesus, quero viver Porquanto Teu amor me chamou a este oásis. Aqui (bis) quero seguir-Te, Amar-Te , amar-te e morrer… Aqui Te quero seguir Ah, sim, somente aqui!… Neste dia, Jesus, cumulas meus votos; Agora poderei, junto da Eucaristia, Imolar-me em silêncio, aguardar em paz os Céus. Expondo-me aos raios da Hóstia Divina, Nesse foco de amor irei me consumir E, como um Serafim, Senhor, eu Te amarei. Breve, Jesus, devo seguir-Te A esta praia do céu, ao findarem meus dias. Sempre (bis) no céu hei de viver, Amar-Te e não mais morrer… Sempre no céu hei de viver Sempre, sim, para sempre!…
  • Ao Sagrado Coração de Jesus

    No santo sepulcro, Maria Madalena Procurando seu Jesus, curvava-se em prantos; Os anjos queriam suavizar sua dor, Mas nada poderia pacificar suas penas. Não era a vós, luminosos Arcanjos, Que aquela alma ardente vinha procurar; Ela queria ver o Senhor dos Anjos, Tomá-lo em seus braços, bem longe o levar. De junto do túmulo fora a última a afastar-se E a primeira a vir com a luz do dia; Seu Deus também veio, velando sua luz, Pois, em questão de amor, ela não o vencia. E Jesus, ao mostrar seu Divino Semblante, Um nome, apenas um, lhe sai do Coração, Dizendo-lhe: Maria! E foi nesse instante Que a encheu toda de paz e de consolação. Bem como Madalena, assim também, um dia, Eu quis Te ver, de Ti me aproximar. Nas plagas deste mundo o meu olhar queria Encontrar o seu Mestre e descobrir seu rei. Eu exclamava, olhando a onda pura, O azul estrelado, a flor e o pássaro: “Se em ti não vejo Deus, natureza brilhante, Não passas, para mim, de um vasto cemitério”. Desejo um coração ardente de ternura, Que um apoio me dê sem nada reclamar, Amando tudo em mim, até minha impotência E noite e dia assim, sem nunca me deixar. Jamais encontrei nenhuma criatura Que pudesse me amar, mas sem poder morrer: Um Deus deve tomar a minha natureza, Tornar-se meu irmão para poder sofrer. Tu me escutaste, Amigo único que amo, Tornando-Te mortal para me conquistar; Derramaste Teu sangue, mistério supremo!… E todavia vives para mim no Altar. Se não posso ver o brilho de Tua Face, Ouvir Tua voz de plena mansidão, Posso, ó Deus, viver de Tua Graça, Posso repousar em Teu Sagrado Coração. Coração de Jesus, tesouro de ternura, Minha felicidade e única esperança, Tu soubeste encantar minha terna juventude, Fica junto a mim quando a última noite chegar! Senhor, a Ti, só a Ti dei minha vida, E todos os meus desejos os conheces bem; É na Tua bondade sempre infinita Que me quero perder, Coração de Jesus! Bem sei que todas as nossas justiças aos Teus olhos não têm nenhum valor. Para valorizar meus sacrifícios Eu os quero lançar em Teu Divino Coração. Encontraste defeito até em Teus anjos; No seio dos trovões emites Tua lei!… Em Teu Coração Sagrado, Jesus, me escondo, E nada temo, minha virtude és Tu!… Para poder contemplar Tua glória, Eu sei que deverei passar por fogo, Mas escolho sofrer a chama purgatória Do Teu ardente Amor, Coração de Meu Deus! A minh’alma, ao deixar o exílio desta vida, Quer fazer um ato de puro amor, E voando ao Céu, sua Pátria, Entrar no Teu Coração sem olhar para trás. Outubro ou junho de 1895
  • Meus desejos aos pés de Jesus escondido em sua prisão de amor

    (Composta a pedido da Irmã São Vicente de Paulo) Oh! chavezinha que invejo! Por abrires, cada dia, A prisão da Eucaristia Onde mora o Deus de Amor. Mas posso, ó doce milagre, Só pelo esforço da fé, Abrir também o sacrário E esconder-me aí com o Rei. Quisera eu no Santuário, Consumindo-me junto a Deus, Brilhar sempre com mistério, Como a lâmpada do lugar Santo. Oh! prazer! Em mim há chamas: Ganhar posso, cada dia, Muitas almas para Jesus, Abrasando-as em Seu amor! A cada aurora te invejo, Sagrada pedra do altar! Como na gruta, em Belém, Em ti nasce o Rei eterno… Digna-Te ouvir minha prece, Vem à minh’alma, Senhor… Longe de ser pedra fria, Ela é o anseio de Teu Peito! Corporal, rodeado de anjos, Quão invejável tua sorte; Sobre ti, como em suas fraldas, Vejo Jesus, meu tesouro. Maria, faz de meu peito Um corporal puro e belo Para receber a Hóstia branca Que esconde o doce Cordeiro. Patena santa, eu te invejo, Pois Jesus em ti repousa. Que Sua grandeza infinita Possa descer até mim… Enchendo minha esperança, Não espera a noite de minha vida: Ele a mim vem; sua presença Faz de mim vivo Ostensório. Eu invejo o feliz cálice Em que adoro o Sangue divino… Mas posso, na Santa Missa, Recolhê-lo cada dia. Mais cara é a Jesus minh’alma Mais cara que os vasos de ouro. O altar é o novo Calvário Onde Seu Sangue ainda corre… Jesus, vinha santa e sagrada, Bem sabes, meu Rei Divino, Que sou um cacho dourado Que por Ti vai consumir-se… No lagar do sofrimento, Provarei meu amor. Outro prazer não desejo Que imolar-me cada dia. Que alegria! Sou escolhida, entre os grãos de puro trigo Que sucumbem por Jesus; Grande é a minha exultação!… Sou Tua esposa querida, Amor, vem viver em mim. Tua beleza conquistou-me, Vem me transformar em Ti!…
  • Responso de Santa Inês

    O Cristo é meu Amor, é minha vida toda; O meu Noivo é Ele que só encantou meu olhar. Escuto, desde agora, os melodiosos sons De Sua doce harmonia. Ele adornou-me as mãos com gemas sem iguais, Com colar de alto preço o pescoço cingiu-me; Os ricos diamantes que se pendem de minhas orelhas São presentes de Cristo. Toda inteira me ornou de pedras preciosas; Em meu dedo já brilha Seu anel nupcial. E dignou-se cobrir de pérolas luzentes Meu manto virginal. Sou a noiva Daquele a quem os anjos Servirão a tremer, por toda a eternidade; Narram a lua e o sol todos os seus louvores E adornam Sua beleza. Seu império é o céu, sua natureza é divina. A Virgem Imaculada por Mãe Ele escolheu, E o verdadeiro Deus, sem princípio, é Seu Pai, Puro Espírito Ele é. Quando amo Jesus e cada vez que O toco, Fica-me o coração mais puro e sou mais casta; O Dom da virgindade é o tesouro que traz No beijo de Sua boca. Ele já colocou sua marca em minha face, Para que amante nenhum ouse achegar-se a mim… Sinto que me sustenta a graça divinal De meu amável Rei. Seu precioso Sangue as faces coloriu-me; Creio já saborear as delícias do céu, Pois posso recolher de seus lábios sagrados Tanto o leite quanto o mel. Vivo assim, sem temor de ferro nem de fogo; Nada pode turbar minha inefável paz E esta chama de amor que consome minh’alma Jamais se apagará!…
  • Lembrança de 24 de fevereiro de 1896

    Primeiro coro Ó inefável lembrança De um dia belo entre todos; Tua incomparável doçura Sempre conservarei… Segundo coro A Jesus estou unida Pelos vínculos do amor, Sua grandeza infinita Morada em mim fixou. Primeiro estribilho Que embriaguez misteriosa! Sinto palpitar em mim Coração-calor-ternura De meu Esposo meu Rei. Terceiro coro Suporto o exílio sem dor Vivendo com meu Esposo… É doce minha corrente Que a um Deus Ciumento me prende!… Quarto coro Ó que divino Ciúme, Feriste meu coração!… Ser-me-ás, pela vida inteira, Repouso e felicidade. Segundo estribilho Vem consumir o meu ser; Jesus em mim deve viver. De hoje em diante quero ser Somente o véu do meu Rei!…
  • Glosa sobre o divino

    (Composta por São João da Cruz e versificada por Santa Teresinha para festejar a profissão da Irmã Maria da Trindade e da Sagrada Face) Apoiada sem apoio algum, Sem luz e em meio às trevas, Vou consumindo-me de Amor… Ao mundo (oh! imensa felicidade!) Eu disse adeus para sempre!… Elevada bem acima de mim mesma, Outro apoio não tenho; só meu Deus. Neste momento proclamo Que o que, junto Dele, estimo É ver e sentir minh’alma Apoiada sem apoio algum!… Apesar de sofrer assim sem luz Nesta vida que é pouco mais que um dia, Eu, ao menos, possuo sobre a terra A vida celestial que vem do Amor… No caminho que deverei seguir Se encontra bem mais de um perigo, Mas por Amor é que quero viver Nas Trevas do exílio. O Amor, disso tenho experiência, Sabe tirar proveito (oh! que poder!) Do bem, do mal que em mim encontra. Ele em si mesmo minha alma transforma; O fogo que crepita em minha alma Penetra-me para sempre o coração. Assim, nesta chama encantadora, Vou consumindo-me de Amor!… 30 de abril de 1896.
  • O céu para mim!

    (Pensamentos da Irmã São Vicente de Paulo, versificados por Santa Teresinha) Para suportar o exílio em um vale de lágrimas, Preciso do olhar de meu Divino Salvador; Este olhar só de amor mostrou-me seus encantos E me fez pressentir o celeste esplendor. Meu Jesus me sorri quando por ele anseio E, então, não sinto mais as provações da fé. Este olhar de meu Deus, seu encantador sorriso, Eis meu céu para mim!… Meu céu é poder atrair sobre as almas, Sobre a Igreja minha Mãe e todas as irmãs, As graças de Jesus, suas divinas chamas Que sabem abrasar e alegrar corações. Tudo posso obter se, dentro do mistério, Falo ao coração de meu Divino Rei E essa doce oração, bem junto do sacrário Eis meu céu para mim!… Meu céu está latente em uma Hóstia pequena, Onde o Esposo, Jesus, se esconde por amor; Neste foco de luz quero beber a vida E aí meu Salvador me aceita noite e dia. “Oh! que instante feliz, quando em Tua ternura, Tu vens, ó meu Amor, me transformar em Ti; Esta união de amor, esta embriaguez divina Eis meu céu para mim!…” Meu céu é sentir em mim a semelhança Do Deus que me criou com sopro poderoso. Meu céu é ficar sempre em Sua presença, Chamando-O de Pai e sendo Sua filha. Entre seus braços não temo a tempestade E sigo como lei o abandono total. Dormir sobre Seu Peito e sob o Seu Semblante Eis meu céu para mim!… Vim encontrar meu céu junto à Trindade Santa Que vive dentro em mim, prisioneira de amor. E contemplando aí meu Deus, digo sem medo Que desejo servi-Lo e amá-Lo para sempre. Meu céu é sorrir para este Deus que adoro E que se esconde a fim de testar minha fé. Sofrer, enquanto espero que Ele me olhe sempre, Eis meu céu para mim!… 7 de junho de 1896 – Festa do Santíssimo Sacramento
  • O que logo verei pela primeira vez

    Ainda vivo em plagas estrangeiras, Mas pressinto a feliz eternidade; Oh! bem quisera já deixar a terra E contemplar o céu com seus encantos… Quando sonho com os gozos da outra vida, De meu exílio o peso já não sinto, Pois logo para minha única Pátria Voarei pela primeira vez… Dá-me, Senhor Jesus, asas bem brancas Para que eu levante vôo até onde estás; Quero voar até as praias eternas, Quero ver-Te, Tesouro meu Divino! Quero voar nos braços de Maria, E repousar em meu trono escolhido, Recebendo de minha Mãe querida O doce beijo pela primeira vez. Ó meu Amor, faze que eu entreveja Teu primeiro sorriso de ternura E deixa-me, em meu santo delírio, Dentro de Teu Coração me refugiar!… Ó belo instante! Ó que infinda alegria, Quando ouvirei Tua doce voz, Quando verei Tua adorável Face Sob a luz do céu, pela primeira vez!… Sabes bem que meu único martírio É Teu amor, Sagrado Coração. Se por Teu céu minha alma suspira, É para amar-Te, amar-Te sempre mais!… Lá do céu, inebriada de ternura, Hei de amar-Te sem lei e sem medida E meu gozo irá sempre parecer-me Tão novo quanto na primeira vez!!! 12 de junho de 1896 – Festa do Sagrado Coração de Jesus
  • Jogar flores

    Jesus, único Amor, ao pé de Teu Calvário, Que prazer para mim, à noite, jogar flores!… Rosas primaveris por Ti despetalando, Quisera enxugar Teu pranto. Atirar flores é ofertar as primícias De pequenos gemidos e de grandes dores. Alegrias e penas, leves sacrifícios, Estas são minhas flores!… Com a alma enamorada de Tua beleza, Quero dar-Te, Senhor, meus perfumes e flores. E, atirando-as por Ti, sobre as asas da brisa, Quero abrasar os corações!… Jogar flores, Jesus, eis aí minhas armas Quando quero lutar para salvar pecadores; Nesta batalha venço… e sempre Te desarmo Com minhas flores!… As pétalas da flor, acariciando Tua Face, Vão dizendo que é Teu este meu coração. Compreendes o que diz minha rosa esfolhada Sorrindo ao meu amor! Jogar Flores, repetindo Teus louvores, Só tenho este prazer neste vale de dores… Daqui a pouco, no céu, estarei com os Teus anjos Jogando Flores!… A Nossa Senhora das Vitórias, Rainha das virgens, dos apóstolos e dos mártires Vós que realizais minha esperança, Escutai, doce Mãe o humilde canto, Canção minha de amor e gratidão Que vem do coração de vossa filha… Vós que , um dia, me unistes para sempre À trabalhosa ação de um Missionário, Pela oração que cria laços, De um amor vinculado ao sofrimento. Compete a ele atravessar a terra Para pregar o nome de Jesus. Ficarei à sombra do mistério, Praticando virtudes pequeninas. Reclamo para mim o sofrimento. Meu amor, meus desejos são de cruz… Para ajudar a salvar uma só alma, Mil vezes gostaria de morrer!… Por ele que conquista almas para Deus, Desejo imolar-me no Carmelo. E por meio dele espalharei as chamas Que Jesus Cristo trouxe lá do Céu. Por meio dele, ó encantador mistério, Até lá no Su-tchuen oriental, Posso conseguir tornar amado O nome virginal da Mãe querida!… Dentro de minha solidão profunda, Quero, Mãe, ganhar os corações. E por meio de vosso Apóstolo distante, Poderei converter os pecadores. Por meio dele a água santa do batismo Transformará a criança de um só dia Num templo consagrado ao próprio Deus, Que nele irá habitar com Seu amor. Quero povoar, com pequeninos anjos, O céu morada eterna e reluzente… Por ele falanges infantis Irão em revoada para o céu!… A palma do martírio que almejo, Por meio dele poderei colher. Ó que bela esperança, Mãe Querida: Irei me tornar irmã de um Mártir!!! Quando deixar o exílio desta vida, No entardecer da luta gloriosa, Iremos saborear, juntos na Pátria, Frutos que, como apóstolos, colhemos. Pertence a ele a glória da vitória Diante dos exércitos dos santos; A mim… basta o reflexo de sua glória Por toda a eternidade, lá nos céus!… 16 de julho de 1896
  • Só Jesus

    Meu coração deseja sempre doar-se, Precisa demonstrar sua ternura. Quem poderá entender o meu amor? E que outro coração me dará retorno?… Mas em vão tal retorno aqui reclamo; Só Tu, Jesus, minh’alma contentas. Coisa alguma me encanta nesta terra; Felicidade pura aqui não há… Minha única paz, minha felicidade, O meu único Amor és Tu, Senhor!… Tu soubeste criar o coração das mães E tenho em Ti o mais terno dos pais! Jesus, único Amor e Verbo Eterno, Para mim Teu coração é mais que maternal. A cada instante Tu me segues, Tu me guardas, Vens sempre ao meu chamado, sem tardança, E se, às vezes, parece que Te escondes, Vens Tu mesmo ajudar-me a procurar-Te. A Ti, Jesus, somente a Ti é que me apego, Aos Teus braços acorro e aí me escondo, Querendo amar-Te, assim como criança, Mas querendo lutar como um bravo guerreiro. Como criança cheia de ternuras, Quero encher Teu rosto de carícias. Lá nos campos, porém, de meu apostolado, Qual valente soldado, atiro-me ao combate!… Teu Coração, que guarda e que nos dá a inocência, Jamais enganaria minha confiança! Em Ti repousa, e só em Ti, minha esperança E, depois deste exílio, irei ver-Te no céu… Quando em meu coração se forma a tempestade, A Ti, Jesus, elevo minha fronte E em Teu olhar, repleto de bondade, Eu leio: “Filha, foi para ti que fiz os Céus”. Bem sei que meus prantos, meus gemidos Chegam diante de Ti repassados de encantos. No céu os serafins são Tua corte, No entanto, vives mendigando amor!… Queres meu coração, Jesus: aqui o entrego! Meus desejos também em Ti abandono, E todos os que eu amo, ó meu Esposo e Rei, Somente em Ti e por Ti desejo amá-los.
  • Como desejo amar

    Jesus Divino, escuta minha prece: Com meu amor quero Te alegrar; Bem sabes que a Ti só quero agradar. Digna-Te ouvir meu mais vivo desejo. Aceito as provas deste triste exílio A fim de consolar Teu Coração, Mas transforma em amor minhas obras todas, Meu doce Esposo e amado Salvador. É Teu amor, Jesus, que busco ansiosa, É Teu amor que deve transformar-me. Põe em meu coração Teu fogo que consome E vou poder amar-Te e bendizer-Te. Sim, poderei Te amar do jeito como se ama E bendizer-Te qual se faz no céu. Vou Te amar co’aquele mesmo amor Com que me amaste Jesus, Verbo Eterno. Divino Salvador, no fim de minha vida, Vem procurar-me sem sombra de atraso. Tua infinita ternura vem mostrar-me A doçura de Teu divino olhar! Que Tua voz me chame com amor, Dizendo: “Vem, que tudo está perdoado; Vem descansar, esposa minha fiel, Vem para meu Coração que tanto amaste.
  • Menino, conheces meu nome

    Menino, conheces meu nome, Teu doce olhar me convida, Dizendo-me: “Abandona-Te, Que vou guiar teu barco”. Com tua mãozinha infantil Oh! maravilha! Com tua vozinha de criança Acalmas o rugir das ondas E o vento! Se queres podes repousar, Enquanto brame a tempestade. Reclina aqui, sobre meu peito, Tua cabecinha loura… Que encantador é teu sorriso Enquanto dormes!… Sempre com a mais doce canção Quero ternamente te ninar Bela criança!
  • O viveiro do Menino Jesus

    Para os pobres exilados da terra, Nosso Criador criou os pássaros, Que vão gorjeando sua prece Tanto nos vales como nas colinas. As crianças alegres, saltitantes, Escolhem suas aves preferidas E as aprisionam dentro das gaiolas, Que com douradas grades são construídas. Ó Jesus, irmãozinho nosso, Por nós abandonaste o lindo céu, Mas, aqui nesta terra, o Teu viveiro É o Carmelo, ó divino Infante! Não é dourada, não, nossa gaiola, Mas, assim mesmo, nós a amamos muito. Não podemos mais voar, isto sabemos, Nos bosques e planícies sob o azul. Os bosques e arvoredos deste mundo Não podem mais, Jesus, nos contentar. Na solidão profunda do convento, Tão somente a Ti vamos cantar. Tua linda mãozinha nos atrai, Menino de carícias encantadas. Ó divino Jesus, o Teu sorriso É que sempre cativa as avezinhas!… Toda alma que for simples e pura Aqui realiza o seu sonho de amor. E, mesmo sendo tímida pombinha, Não mais precisa temer o abutre. Levado pelas asas da oração, Vê-se subir o coração ardente, Como leve e sonora cotovia Que, cantando, se eleva nos espaços Aqui dentro se escutam os trinados Do rouxinol, do alegre pintassilgo Que, nas gaiolas, ó Jesus Menino, Vão cantando Teu nome com gorjeios. As avezinhas cantam sem parar, Porque sua vida não as preocupa. Com um grãozinho de alpiste se contentam E não precisam nunca plantar nada. Como elas nós também, neste viveiro De Tua boa mão tudo ganhamos. E somente uma coisa é necessária: Sempre Te amar, Menino divinal! Também nós entoamos Teus louvores, Unidas aos espíritos celestes. E sabemos que os anjos, todos eles, Amam, no céu, as aves do Carmelo. Para enxugar o pranto, meu Jesus, Que Te fazem verter os pecadores, Tuas aves repetem Teus encantos e, cantando, Te ganham corações. Um dia, já bem longe deste mundo, Após terem ouvido o Teu chamado, Todas as aves deste Teu viveiro Baterão suas asas rumo ao céu. Então, entre as falanges encantadas De Querubins pequenos, jubilosos, Ó divino Infante, Teus louvores Nós cantaremos todas lá no céu.
  • Minha alegria

    Há almas na terra Que em vão procuram a felicidade; Entretanto, comigo dá-se o contrário: Trago no coração sempre a alegria E não é uma alegria passageira; Eu a trago comigo a todo instante! Como uma rosa em plena primavera, Ela sorri para mim dia após dia. Sim, sou feliz, sou feliz demais, Pois faço sempre aquilo que bem quero… Como deixar, então, de ser alegre Ou deixar de mostrar minha alegria?… Minha felicidade é amar a dor E sorrir, mesmo enquanto o pranto escorre; Aceito, com a mesma gratidão, Flores entrelaçadas com espinhos. Quando meu céu azul se torna escuro, Quando tudo parece abandonar-me, Minha alegria é ficar na sombra, Esconder-me e rebaixar-me. Minha alegria é a vontade sagrada De Jesus Cristo, meu único amor. Assim vivo sem nenhum temor E amo igualmente o dia como a noite. Minha alegria é sempre ser pequena. E assim, se às vezes caio no caminho, Posso me levantar bem depressa. Jesus Cristo me pega pela mão. Cobrindo-O, então, todo de carícias, Digo que Ele é tudo para mim. Se acaso Ele se esconde de minha fé, Aí é que redobro meus carinhos. Se, às vezes, derramo algumas lágrimas, O meu prazer consiste em escondê-las. Ah! como o sofrimento tem encantos, Quando, com flor, se sabe disfarçá-lo! Desejo sofrer sem dizer nada Para consolar Jesus desta maneira. Minha alegria é ver Seu sorriso, Enquanto o coração tenho no exílio… Minha alegria é viver lutando, Gerando, assim, eleitos para o céu E, coração ardendo de ternuras, Repetir a Jesus continuamente: “Por Ti, meu Irmãozinho divinal, Eu me sinto feliz no sofrimento E minha única alegria neste mundo É só poder sempre alegrar-Te. Quero viver ainda muito tempo, Meu Senhor, se esta for Tua vontade, E quisera, depois, seguir-Te ao céu, Se isto também Te causa algum prazer. Esta chama de amor que vem da Pátria Não deixa nunca de me consumir! Pouco me importa a morte ou mesmo a vida: Jesus, minha alegria é Te amar”!
  • A meu Anjo da Guarda

    Glorioso Guardião de minh’alma, Tu que brilhas lá no céu, Como pura e doce chama Ao lado do trono do Eterno, Tu, por mim desces à terra E com tua luz me iluminas, Tornando-te meu irmão, amigo e consolador. Conhecendo-me a fraqueza, Tu me diriges pela mão. E te vejo, com ternura, Tirar pedras do caminho. Tua doce voz me convida A sempre olhar para o céu; Mais me vês pequena e humilde, Mais esplendor tens na fronte. Ó tu que cruzas o espaço Mais veloz do que os relâmpagos, Peço-te, em meu lugar, Voa até aqueles que amo! Com as asas seca seu pranto, Canta que Jesus é bom E que a dor tem seus encantos E sussurra-lhes meu nome… Quero, nesta curta vida, Salvar irmãos pecadores; Ó meu belo anjo do céu, Dá-me teus santos ardores. Só tenho meus sacrifícios E minha austera pobreza: Com os teus gozos celestes Oferece-os à Trindade. A ti o Reino e sua Glória Com os dons do Rei dos reis. A mim o cibório e sua hóstia, A mim o tesouro da cruz. Sim, a mim só cruz com Hóstia. Com tua ajuda celeste, Espero em paz a outra vida E as alegrias eternas. A minha querida irmã Maria Filomena lembrança de sua filhinha Teresa do Menino Jesus e da Santa Face Rel. Carm. Ind.
  • Minhas armas

    (Canto composto para uma profissão) “Revesti-vos das armaduras de Deus, a fim de que possais resistir às ciladas do diabo.” (Efésios) “A Esposa do Rei é terrível como um exército, alinhado para o combate; ela é semelhante a um coro musical num campo de batalha.” (Cântico dos Cânticos) Do Poderoso visto as armaduras, Pois Sua mão dignou-se me adornar. Daqui por diante nada mais me assusta; Quem me vai separar de Seu Amor? Lançando-me, a Seu lado, em plena arena, Sei que não temerei ferro nem fogo; Saibam meus inimigos: Sou rainha, Sou esposa de um Deus! Jesus, guardarei as armaduras Que visto ante Teus olhos adorados. Meu mais belo ornamento, até morrer, Serão meus santos votos! Pobreza, meu primeiro sacrifício, Vais seguir-me, até a morte, em toda parte, Pois sei que, para poder correr na pista, De tudo deve o atleta despojar-se. Gozai, mundanos, o remorso e a dor, Que são frutos amargos da vaidade. Mas, na arena, alegre irei colher As palmas da pobreza. Disse Jesus: “É pela violência Que se conquista o reino celestial”. Seja, então, a pobreza minha lança E glorioso capacete. A Castidade faz-me irmã dos anjos, Os espíritos puros, vitoriosos; Hei de voar, um dia, em suas falanges. Mas, neste exílio, lutarei como eles. Sem repouso nem trégua hei de lutar Pelo Senhor dos Reis que é meu Esposo. Minha espada celeste é a Castidade Que pode conquistar-Lhe corações. A Castidade é minha arma invencível Com que meus inimigos são vencidos. Ela me torna, Oh! que prazer infindo, Esposa de Jesus. Foi um anjo orgulhoso, entre esplendores, Que disse: “Nunca irei obedecer!” Mas grito, na noite desta vida: “Quero obedecer sempre na terra”. Sinto nascer em mim uma audácia santa, Com que enfrento o furor de todo o inferno. A Obediência é para mim Couraça E Escudo do coração. Não quero outro esplendor, Deus dos Exércitos, Só quero submeter minha vontade em tudo, Pois a Obediência sempre há de cantar vitórias Por toda a Eternidade. Se tenho as armas poderosas do Guerreiro E se, valentemente, O imitar na luta, Como a Virgem das Graças encantadoras, Quero também cantar em meu combate. Fazes vibrar as cordas de Tua lira, Que é, meu Jesus, meu próprio coração! Então posso gozar Tuas misericórdias, Cantar a força e a doçura. Sempre sorrindo enfrentarei metralhadoras E, nos Teus braços, meu Divino Esposo, Cantando morrerei no campo de batalha, Com as armas na mão!…
  • A Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

    (Primeira estrofe) Ó Mãe querida, desde minha infância Teu semblante encantou meu coração; Lia em teu olhar tua ternura E achava, junto a ti, felicidade. (Estribilho) Lá nas plagas do céu, Virgem Maria, Hei de ver-te, depois de meu exílio, Mas, aqui nesta vida, tua imagem É sempre meu socorro a toda hora! (Segunda estrofe) Quando era boazinha e obediente, Tinha a impressão de que sempre me sorrias, Mas se era, às vezes, meio levadinha, Eu cria ver-te sobre mim chorando! (Terceira estrofe) Ao escutar minha oração tão simples, Mostravas-me carinho maternal E eu encontrava, ao ver-te sobre a terra, Prelibadas delícias de meu céu. (Quarta estrofe) Enquanto luto, ó minha Mãe querida, Tornas minh’alma forte no combate, Pois sabes que, na tarde da existência, Quero ofertar Padres ao Senhor!… (Quinta estrofe) Doce Imagem de Mãe, eternamente, Meu tesouro serás, minha alegria. E quero, em minha hora derradeira, Fixar ainda em ti o meu olhar. (Último estribilho) Depois, voando às plagas celestiais, Vou assentar-me, ó Mãe, em teus joelhos E aí, sem dividi-los com ninguém, Receberei teus beijos de ternura!… março de 1897
  • Uma rosa desfolhada

    Jesus, quando Te vejo, em Tua Mãe apoiado, Deixar seus braços E ensaiar a tremer, nesta terra exilado, Os Teus primeiros passos, Diante de Ti quisera uma flor desfolhar Em seu frescor, Para ver Teu pezinho repousar sem dor Sobre uma flor!… A rosa desfolhada é a imagem verdadeira, Divino Infante, De uma vida que quer se imolar toda inteira A cada instante. Muita rosa deseja irradiar formosura E Teu altar, Numa doação total… Busco ambição mais pura: “Desfolhar-me!…” Brilho de rosa torna uma festa luzente, Ó Menino do céu; Mas, rosa desfolhada, esta vai, simplesmente, Do vento ao léu. Uma rosa desfolhada entrega-se a seu dono Para sempre, amém. É como ela, Senhor, que feliz me abandono A Ti também. Sem susto a gente pisa em pétalas de rosa Que vão morrendo. Decoração sem arte e despretensiosa, Assim o entendo… A Ti foi minha vida, ó Jesus, consagrada Com meu porvir. Aos olhos dos mortais isto é rosa fanada: Vou me estinguir!… Por Ti devo morrer, Beleza eterna e viva Que sorte de ouro! Desfolhando-me dou prova definitiva Que és meu tesouro!… Teus passos infantis eu sigo, em meu fadário, Vivendo aqui em Teus braços, Pensando em suavizar, na estrada do Calvário, Os Teus últimos passos!… 19 de maio de 1897
  • O abandono é o delicioso fruto do amor

    Existe, aqui nesta terra, Uma árvore excelente: Sua raiz – que mistério! – Se encontra, porém, no céu. Debaixo de sua sombra, Nada é capaz de ferir. Sem medo da tempestade, Lá se pode repousar. Amor é o nome que tem Essa árvore inefável, E seu fruto delicioso Leva o nome de abandono. Já desde aqui, nesta vida, Seu fruto me dá prazer. Minh’alma rejubila Com seu divino perfume Este fruto, quando o toco, Deixa impressão de um tesouro. Mas é quando à boca o levo Que sinto maior doçura. Ele me traz, neste mundo, Um mar inteiro de paz. Neste repouso profundo Encontro descanso eterno. Só o abandono me leva A Teus braços, ó Jesus, Só ele me faz viver A vida de Teus eleitos. A ti, pois, eu me abandono, Ó meu Esposo divino E nada mais ambiciono Que a unção de Teu doce olhar. Para Ti quero sorrir, Dormindo em Teu Coração E sempre Te repetir Que Te amo muito, Senhor. Assim como a margarida, Com seu cálice dourado, Eu também, pequena flor, Abro as pétalas ao sol. Meu doce sol da vida, Amabilíssimo Rei, É Tua pequena Hóstia, Tão pequenina como eu… Os reflexos luminosos De sua chama celeste Fazem nascer em minh’alma Um Abandono perfeito. As criaturas deste mundo Poderão me abandonar, Mas, junto a Ti, sem queixar-me, Passo muito bem sem elas. Mas se Tu me abandonares, Ó meu Tesouro Divino, Mesmo sem Tuas carícias, Ainda quero sorrir. Quero esperar em paz, Doce Jesus, Tua volta, Sem jamais interromper Os meus cânticos de amor. Não, nada mesmo me inquieta, Nada pode perturbar-me. Mais alto que a cotovia, Minh’alma sabe voar. Lá, bem acima das nuvens, O céu fica sempre azul. E aí se toca a fronteira Do Reino do nosso Deus. Espero em paz a glória Da morada celestial, Porque encontro na Hóstia O doce fruto do Amor! 31 de maio de 1897
  • Porque eu te amo, Maria

    Quisera cantar, Maria, porque te amo, Porque, ao teu nome, exulta meu coração E porque, ao pensar em tua glória suprema, Minh’alma não sente temor algum. Se eu viesse a contemplar o teu fulgor sublime Que supera de muito o dos anjos e santos, Não poderia crer que sou tua filha E, então, diante de ti, baixaria meus olhos. Para que um filho possa amar sua mãe, Que ela chore com ele e partilhe suas dores… Pois tu, querida Mãe, nestas plagas de exílio, Quanto pranto verteste a fim de conquistar-me!… Ao meditar tua vida escrita no Evangelho, Ouso te contemplar e me acercar de ti; Nada me custa crer que sou um de teus filhos, Pois te vejo mortal e, como eu, sofredora. Quando o anjo te anunciou que serias a Mãe Do Deus que reinará por toda a eternidade, Eu te vi preferir, Maria – que mistério! -, O inefável, luzente ouro da Virgindade. Compreendo que tua alma, Imaculada Virgem, Seja mais cara a Deus que o próprio céu divino; Compreendo que tua alma, Humilde e doce Vale, Possa conter Jesus, o grande Mar do Amor!… Como te amo, Maria, ao declarar-te serva Do Deus que conquistaste por tua humildade, Tornou-te onipotente essa virtude oculta. Ela ao teu coração trouxe a Trindade santa e o Espírito de Amor, cobrindo-te em sua sombra, O Filho, igual ao Pai, encarnou-se em teu seio… Inúmeros serão seus irmãos pecadores, Uma vez que Jesus é o teu primeiro filho!… Ó Mãe muito querida, embora pequenina, Trago em mim, como tu, o Todo-Poderoso e nunca tremo ao ver em mim tanta fraqueza. O tesouro da Mãe é possessão do Filho, e sou tua filha, ó Mãe estremecida. Tua virtude e amor não são, de fato, meus? E quando ao coração me vem a Hóstia santa, Teu Cordeiro, Jesus, crê que repousa em Ti!… Tu me fazes sentir que não é impossível Os teus passos seguir, Rainha dos eleitos, Pois o trilho do céu nos tornaste visível, Vivendo cada dia as mais simples virtudes. Quero ficar pequena ao teu lado, Maria, Por ver como são vãs as grandezas do mundo. Ao ver-te visitar a casa de Isabel, Aprendo a praticar a caridade ardente. Aí escuto absorta, ó Rainha dos anjos, O canto celestial que jorrou de teu peito; Ensinas-me a cantar os divinos louvores E a só me gloriar em Jesus Salvador. Tuas frases de amor caíram como rosas Que iriam perfumar os séculos futuros. O Todo-Poderoso em ti fez maravilhas, Cujas bênçãos, na prece, quero usufruir. Quando o bom São José ignorava o milagre Que intentavas velar com tua humildade, Tu o deixaste chorar aos pés do Tabernáculo Que esconde o Salvador e sua eterna Beleza!… Maria, amo esse teu eloqüente silêncio, Que soa para mim como um doce concerto, Melodia cantando a grandeza e o poder De um coração que espera ajuda só dos céus… E, mais tarde, em Belém, ó José e Maria, Rejeitados os vi por todas as pessoas. Não os recebeu ninguém em sua hospedaria, Que só os grandes acolhe e não pobres migrantes… Para os grandes o hotel, portanto é num estábulo Que a Rainha do céu dá à luz o Filho-Deus. Minha querida Mãe que acho tão amável, Como te vejo grande em lugar tão pequeno!… Quando vejo o Eterno envolvido em paninhos E ouço o fraco vagir desse Verbo divino, Ó Mãe querida, não invejo mais os anjos, Porquanto o Onipotente é meu amado Irmão!… Como te amo, Maria, a ti que, em nossas terras, Fazes desabrochar essa divina Flor!… Como te amo escutando os pastores e os magos Guardando, com amor, tudo no coração!… Amo ao ver-te também, entre as outras mulheres, Os passos dirigindo ao Templo do Senhor. Amo-te apresentando o nosso Salvador Àquele santo ancião que O tomou em seus braços. Em princípio, sorrindo, escuto o canto dele, Logo, porém, seu tom me faz cair em pranto, Pois, sondando o porvir com olhar de profeta, Simeão te apresentou uma espada de dores. Rainha do martírio, até a noite da vida Essa espada de dor traspassará teu peito. Cedo tens de deixar o teu país natal, Fugindo do furor de um rei cheio de inveja. Jesus cochila em paz nas dobras de teu véu; José te vem pedir para partir depressa E logo se revela tua obediência, Partindo sem atraso ou considerações. Lá na terra do Egito, ó Maria, parece Que manténs, na pobreza, o coração feliz. Uma vez que Jesus é a mais bela das pátrias, Com Ele tendo o céu, pouco te importa o exílio… Mas, em Jerusalém, uma amarga tristeza, Como um imenso mar, vem inundar teu peito: Por três dias Jesus se esconde de teu amor; Agora é exílio, sim, em todo o seu rigor. Tu O descobres enfim, e alegria te inunda Vendo teu belo filho encantando os doutores E lhe dizes: “Por que, meu filho, agiste assim? Eis que eu mais o teu pai chorando te buscávamos!” Então o Filho de Deus responde (oh! que mistério!) À sua terna Mãe que os braços lhe estendia: “Por que me procurais?… Não sabeis, talvez, Que das obras do Pai devo me ocupar?” O Evangelho nos diz que, crescendo em saber, A Maria e José, Jesus obedecia. E o coração me diz com que infinda ternura O Menino a seus pais assim se submetia. Só agora compreendo o mistério do templo: Palavras de meu Rei envoltas em mistério. Teu doce Filho, Mãe, quer que sejas exemplo De quem O busca em meio à escuridão da fé. Já que o supremo Rei do Céu quis que sua mãe Se afundasse na noite e em angústias interiores, Então, Maria, é um bem sofrer assim na terra? Sim, sofrer com amor é o mais puro prazer. Tudo quanto me deu Jesus pode tomar; Dize-lhe que comigo nunca se preocupe… Que se esconda, se quer; consinto em esperar Até o dia sem poente em que se apaga a fé. Sei que, em Nazaré, ó Mãe, cheia de graça, Longe das ambições, viveste pobremente, Sem arrebatamento ou êxtase e milagre Que te adornasse a vida, ó Rainha do Céu. Na terra é muito grande o bando dos pequenos Que, sem temor, a ti elevam seu olhar. É o caminho comum que te apraz caminhar, Incomparável Mãe, para guiá-los ao céu! Enquanto espero o céu, ó minha Mãe querida, Contigo hei de viver, seguir-te cada dia. Contemplando-te, Mãe, sinto-me extasiada Ao descobrir em ti abismos só de amor. Teu olhar maternal expulsa meus temores, Ensina-me a chorar e também a sorrir. Em vez de desprezar gozos puros e santos, Tu os queres partilhar, digna-te a abençoá-los. Em Caná, ao notar a angústia do casal Que não sabe ocultar a falta de vinho, Preocupada contas tudo a teu Jesus, Esperando de Seu poder a solução. Parece que Jesus recusa teu pedido Dizendo: “Isto que importa a mim e a ti, Mulher?” Mas, lá em seu coração, Ele te chama Mãe E por ti Ele opera o primeiro milagre… Pecadores, um dia, ouviam a palavra Daquele que no céu deseja recebê-los. Junto deles te vejo, ó Mãe, sobre a colina, E alguém diz a Jesus que tu pretendes vê-Lo. Então o Filho de Deus, diante da turba inteira, Mostrou a imensidão de Seu amor por nós Dizendo: “O meu irmão e minha Mãe quem é? Não é outro senão quem faz minha vontade”. Virgem Imaculada, a mais terna das mães, Ao escutar Jesus tu não ficaste triste Mas te alegraste, pois Ele nos fez saber Que nossa alma, aqui embaixo, é Sua família. Tu te alegras por ver que Ele nos dá Sua vida, E os tesouros sem fim de Sua divindade!… Como, pois, não te amar, ó Mãe terna e querida, Ao ver tamanho amor e tão grande humildade? Tu nos amas, ó Mãe, como Jesus nos ama E consentes, por nós, em afastar-se dele. Amar é tudo dar; depois, dar-se a si mesmo. Isto provaste ao te tornares nosso apoio. Conhecia Jesus tua imensa ternura E os segredos de teu coração maternal. Ele nos deixa a ti, do pecador Refúgio, Quando abandona a cruz para esperar-nos no céu. Tu me apareces, Mãe, no cimo do Calvário, De pé, junto da cruz, qual padre ao pé do altar, E ofertas, para aplacar a justiça do Pai, Teu querido Jesus, esse doce Emanuel… Um profeta já disse, ó Mãe tão desolada: “Não há dor neste mundo igual à tua dor”! Ficando aqui no exílio, ó Rainha dos mártires, Todo o sangue que tens no coração nos dás. O teu único asilo é a casa de São João; Filho de Zebedeu deve substituir Jesus!… É o detalhe final que vem nos evangelhos E não se fala mais da Rainha dos céus. Mas, Mãe querida, teu silêncio tão profundo Não revela tão bem a nós que o Verbo eterno Quer cantar Ele próprio o louvor de tua vida Para poder encantar teus filhos lá no céu? Logo, logo ouvirei essa doce harmonia; Cedo irei para o céu a fim de lá te ver. Tu que, no amanhecer da vida, me sorriste, Vem me sorrir de novo, ó Mãe! Já se faz noite!… Não tenho mais temor do brilho de tua glória; Contigo já sofri, o que desejo agora É cantar, em teu colo, ó Mãe, porque é que te amo E mil vezes dizer-te que sou tua filha!…