Data : 17/07/2015

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Documentos de 1983-1991

7.4 Documentos de 1983-1991

monte
No período que vai até a Congregação Geral em Caracas (1992) o foco principal era sobre a família carmelitana e o compromisso da Ordem com a justiça e a paz. A Congregação Geral de 1980 no Rio de Janeiro foi dedicada ao tema “Os Pobres nos interpelam”. Naquele ano as propostas das teologias da libertação foram amplamente difundidas na Igreja e na Ordem. A 3ª Conferência Latino-americana de Bispos, de grande  importância, ocorrera em Puebla em 1979. Ela aprofundou muitas idéias mariológicas: o lugar de Maria na Igreja; um exemplo de mulher; a serva; a estrela da evangelização; a Mãe dos pobres e marginalizados; um foco de piedade popular; um exemplo de libertação através de seu Magnificat.
Outro tema que foi tratado em encontros internacionais da Ordem foi o da fraternidade e o da comunidade. Mas existem poucas referências à Maria em seus documentos.

Podemos lembrar uma carta do Prior Geral, Fr. Falco Thuis, aos irmãos e irmãs da Ordem, de 1983. Ela não apenas foi publicada como de costume em nosso Analecta, mas foi traduzida em várias línguas e tornou-se disponível aos membros da Ordem na forma de um livreto.281 É um documento importante em vários aspectos. Ele foi escrito no final do décimo segundo ano de seu ofício como Prior Geral e, portanto, presumivelmente pensada por ele como um testamento importante. O período de seu priorado (1971-1983) foi de uma profunda busca e de novos enfoques da parte da Ordem, onde as dimensões horizontais de fraternidade e de compromisso com os pobres foram muito enfatizadas. Embora o Prior Geral não tenha esquecido destes enfoques – na verdade ele foi um de seus principais incentivadores – ele talvez tenha acrescentado um contrapeso, ao relembrar o que ele chama, num subtítulo da carta, de “Contemplação: fio condutor na vida do Carmelo”.

A principal passagem sobre Maria vem depois de uma ampla abordagem sobre a fidelidade a Jesus Cristo, desenvolvida a partir da Regra e de nossos escritos mais antigos. Ele escreve assim:

O obséquio ao Cristo foi lido pelos nossos Padres também em relação à Virgem Maria, sua padroeira, em cujo obséquio do mesmo modo desejam viver, pois que Nela encontram o exato modelo de uma existência consumada em Cristo. A vida de Nossa Senhora pode-se entender somente nesta relação ao Filho pela atenção demonstrada à Palavra de Deus e pela disponibilidade na resposta. (1) Os Carmelitas leram esta palavra, contemplando-a na forma vivida por Nossa Senhora; e no século XVII elaboraram uma doutrina mariana para conduzir uma vida segundo Maria, quer dizer, conforme seu consentimento e seu espírito e alcançar a completa união com Deus e com o Cristo, realizando assim, uma vida deiforme e divina. (2) [Observações: (1) 5º Conselho das Províncias; (2) Miguel de Santo Agostinho.]

O 9º Conselho das Províncias em Fátima, 1985, escolheu o tema “A Dimensão Internacional da Fraternidade Carmelitana”.283 Sua mensagem final foi, pela primeira vez, dirigida explicitamente à toda família carmelitana. Refletindo sobre a internacionalidade da Ordem o Conselho afirmou:
A devoção à Mãe do Salvador, Maria, a Virgem Puríssima, Irmã do Carmelo, padroeira e ornamento, e a evocação inspirativa do Profeta Elias, tudo isto tem sido a linguagem comum entre nós, seja na espiritualidade seja na atividade pastoral.
Ela também traz uma oração final:

Maria de Nazaré, Mater unitatis e “figura da humanidade reconciliada”, acompanhe-nos em nosso caminho entre os povos até o dia da vinda do Senhor Jesus, quando serão congregados os povos e tudo será transformado segundo o desígnio de Deus.
Estas duas breves referências são significativas. O fato de que o encontro ocorreu num importante santuário mariano teria sensibilizado as pessoas para a dimensão mariana da Ordem. O mais notável ainda é o reaparecimento dos fortes temas marianos tradicionais da Ordem: Virgem Puríssima, Irmã, Padroeira e Ornamento do Carmelo. Tais títulos não apareciam em textos da Ordem desde 1968.
A partir de uma perspectiva mariana, existe pouco a observar nos encontros em Cataratas de Niagara (1986), Filipinas (1987) e Irlanda (1988).
A contribuição mais significativa destes anos encontra-se no guia de formação de 1988. Trabalhando em busca de uma proposta sobre a política de formação, a Ratio institutionis vitae carmelitanae (RIVC) surgiu em 1985 e teve sua aprovação no Conselho Geral de 1988. É um trabalho importante já que foi o resultado de extensa colaboração e ampla consulta na Ordem, especialmente da parte daqueles envolvidos na formação e dos peritos nas várias áreas. Devido a seu propósito, ele tinha que conter uma abordagem sobre a natureza e o carisma da Ordem. Suas afirmações marianas mostram sensibilidade para com nossas tradições mais antigas e para com as descobertas pós-Vaticano II. Já que ele não está totalmente disponível para a maioria da Ordem, as seções sobre Maria (19-22) são reproduzidas aqui.

#19. Maria, sob a sombra do Espírito do Senhor, é a Virgem do coração novo, (1) a “virgem puríssima” que dá uma face humana ao Verbo que se fez carne. (2) Ela é a Virgem que ouve de maneira sábia e contemplativa, que guarda e medita em seu coração as ações e as palavras do Senhor. (3) Maria é a discípula da Sabedoria, que busca Jesus (a Sabedoria de Deus) e se deixa ensinar e formar por ele para que, na fé, os caminhos e as escolhas de Deus sejam também dela. (4) Tendo aprendido desta forma, Maria lê “os grandes feitos” que Deus realizou por ela.

#20. Na Virgem Maria, Mãe de Deus e modelo da Igreja (5) a fraternidade do Carmelo encontra a imagem perfeita de tudo o que deseja e espera ser. É por isso que Maria há muito tempo tem sido considerada a Padroeira da Ordem e foi invocada como mãe e irmã dos Carmelitas; um sinal eloqüente disso é a dedicação a ela da primeira capela construída no Monte Carmelo. Ao olharmos para Maria, “que deu inspiração à vida apostólica da primeira comunidade cristã”, (6) aprendermos a viver juntos como irmãos no Senhor. Maria é a mãe e discípula perfeita do Senhor. Portanto, ela se torna nossa irmã na jornada de fé. Partilhamos com ela a jornada exigente do seguimento de Cristo e ela nos ajuda à medida que aprendemos a viver no amor fraterno (7) e no serviço uns dos outros. (8) Nas Bodas de Caná ela nos leva a confiar em seu filho. (9) Aos pés da cruz ela se torna a mãe de todos os que crêem (10) e junto com eles, experimenta a alegria da ressurreição. Junto com os outros discípulos ela partilha da oração contínua (11) e recebe a efusão do Espírito Santo que enche a primeira comunidade cristã com o zelo apostólico.

#21. Maria é a portadora da Boa Nova da salvação para a humanidade. (12) Ela é a mulher que realiza a comunhão não apenas com os próprios discípulos, mas com um círculo mais amplo de pessoas: com Isabel, com a noiva e o noivo em Caná, com as outras mulheres e com os “irmãos” de Jesus. (13) Ela vive entre eles como uma irmã totalmente atenta às suas necessidades. Ela espera, deseja, sofre e se rejubila com eles. Na tradição do Carmelo, especialmente do século XVI em diante, o relacionamento próximo de Maria com o povo tem sido expresso através da devoção ao Escapulário. O Escapulário tanto é um sinal da consagração do Carmelo a ela quanto um meio valioso de evangelizar o povo.
#22. Hoje, seguindo o exemplo de Maria e de Elias, a Regra do Carmelo é proposta como um modo de vida para a realização de qualquer pessoa em Cristo…

[Notas: (1) Ez 36,26. (2) Lc 1,28-37. (3) Lc 2,19-51. (4) Lc 2,44-50. (5) SC 103. (6) Congregação Geral 1974 – “O Carmelita Hoje” n.3 Towards PB 41. (7) Jo 15,12-13. (8) Jo 13,12-15. (9) Jo 2,5. (10) Jo 19,26. (11) At 1:14. (12) Lc 1, 39. (13) At 1:14.]286
Apesar dos problemas ocasionais, este documento está entre os melhores que apareceram no período entre 1968-1992. Ele continua nesta senda que começou no encontro do Monte Carmelo em 1979, buscando integrar elementos tradicionais de nossa herança. As posições que ele assume deveriam estar refletidas nas Constituições de 1995.

Mas nem o 12º encontro do Concílio das Províncias em Salamanca em 1991, nem a Congregação Geral em Caracas em 1992 tiveram qualquer conteúdo mariano significativo.