A MISSÃO DE JESUS

Frei Carlos Mesters, O. Carm

--------Jesus veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Numa sociedade, porém, onde muitos são excluídos e marginalizados, sem condições de ter vida de gente, esta mensagem de vida só se faz presente na contra-mão. Pois Deus não se coloca do la¬do dos que cru¬cifi¬cam, mas sim do lado dos crucificados. Numa sociedade assim, Seguir Jesus para anunciar o Reino significa assumir com ele a mesma luta em defesa da vida, participar do mesmo destino, "estar com ele nas tentações" (Lc 22, 28), inclusive na perse¬guição (Jo 15,20; Mt 10,24-25), e na morte (Jo 11,16). Vamos ver como ele e seus discípulos realizaram a missão que re¬ceberam do Pai, como revelaram a Boa Nova do Reino ao povo da sua terra.

--------1. Jesus convive com os marginalizados e os acolhe

Jesus oferecia um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolhia os que não eram acolhidos. Recebia como irmão e irmã aos que a religião e o governo despre¬zavam e excluíam. Assim, Jesus acolhia com amor e carinho:
* os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11),
* os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42),
* os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26),
* os marginalizados: mulheres,crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s),
* os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10);
* os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,¬20.¬24; Mt 11,25-26).

Jesus anuncia o Reino para todos! Não exclui ninguém. Mas o anuncia a partir dos ex¬cluídos. A sua opção é clara, seu apelo também: não é possível ser amigo de Jesus e continuar apoiando um sistema que marginaliza tanta gente. E aos que querem segui-lo ele manda esco¬lher: "Ou Deus, ou o dinheiro! Servir aos dois não dá!" (Mt 6,24) "Vai, vende tudo que tens, dá aos pobres. Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21).

--------2. Jesus acolhe e valoriza a mulher

A mulher vivia marginalizada pelo simples fato de ser mulher (cf Lv 15,19-27; 12, 1-5). Na sinagoga não participava. Na vida pública nem podia ser testemunha. Injustiça maior não podia haver! Jesus tomou posição:
* A moça prostituída encontra amor e perdão, e recebe defesa contra o fariseu (Lc 7,36-50).
* A mulher encurvada é acolhida como “filha de Abraão” e recebe defesa (Lc 13, 10-17).
* A senhora considerada impura , é acolhida sem censura e é curada da sua doença (Mc 5,25-34).
* A mulher adúltera recebe acolhida e defesa contra os que queriam matá-la a pedradas (Jo 8,2-11).
* A Samaritana, herética , é a primeira a receber o segredo de que Jesus é o Messias (Jo 4,26).
* A estrangeira de Tiro e Sidônia é atendida por ele (Mc 7, 24-30).
* As mães com filhos pequenos são acolhidas contra a vontade dos discípulos (Mt 19,13-15).
* Maria Madalena, considerada possessa, foi curada por Jesus (Lc 8,2) e recebeu dele a ordenação de transmitir a Boa Nova da Ressurreição aos apóstolos (Jo 20,16-18).
Jesus retomou o projeto do Pai, em que homem e mulher, nas suas diferenças, são iguais em dignidade e valor (Mt 19,4-5). E aos discípulos que querem segui-lo, ele não permite que mantenham o domínio do homem sobre a mulher (Mt 19,10-12).

--------3. Jesus combate as divisões injustas

Havia divisões, legitimadas pela religião oficial, que marginalizavam muita gente. Jesus, com palavras e gestos bem concretos, ignorou estas divisões e as denunciou com força:
* Próximo e não-próximo. “próximo” é todo aquele de quem você se aproxima (Lc 10,29-37).
* Judeu e estrangeiro. Jesus ignora esta divisão, pois atende ao pedido do centurião (Lc 7,6-10) e da cananéia (Mt 15,21-28).
* Santo e pecador. Jesus acolhe Zaqueu, rebate as críticas (Lc 19,1-10) e chega a fazer uma refeição de confraternização com os pecadores (Mc 2,15-17).
* Puro e impuro. Jesus questiona e critica as muitas leis da pureza legal (Mt 23,23-24; Mc 7, 8-23) e declara puros todos os alimentos (Mc 7,19).
* Obras santas e profanas. Jesus critica a ostentação com que muitos praticavam a esmola (Mt 6,1-4), a oração (Mt 6,5-8) e o jejum (Mt 6,16-18), e ensina um novo jeito de realizá-los.
* Tempo sagrado e profano. Jesus coloca o sábado a serviço do ser humano: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27: Jo 7,23).
* Lugar sagrado e profano. Jesus relativiza o Templo e ensina que Deus pode ser adorado em qualquer lugar, contanto que seja em espírito e verdade (Jo 4,21-24; 2,19; Mc 13,2).
*Rico e pobre. Jesus critica os ricos e ensina que não é possível servir a dois senhores (Lc 16,13). O testemunho de sua vida acompanha e comprova suas palavras (Lc 9,58).
Denunciando estas divisões injustas, Jesus convida as pessoas a se definirem frente aos novos valores do amor e da justiça. Alguns o aceitam, outros o rejeitam. Por isso, ele cria novas divisões (Mt 10,34-36) e se torna “sinal de contradição” (Lc 2,34). E aos que querem segui-lo, adverte que se preparem. Irão sofrer a mesma contradição (Mt 10,25).

--------4. Jesus combate os males que estragam a vida

Jesus veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Onde podia, defendia a vida contra os males que a ameaçavam ou matavam. Através da sua ação e pregação, ele combatia:
* a fome (Mc 6,35-44),
* a doença (Mc 1,32-34),
* a tristeza (Lc 7,13),
* a ignorância (Mc 1,22; 6,2),
* o abandono (Mt 9,36),
* a solidão (Mt 11,28; Mc 1,40-41),
* a letra que mata (Mc 2,23-28; 3,4),
* a discriminação (Mc 9,38-40; Jo 4,9-10),
* as leis opres¬soras (Mt 23,13-15; Mc 7,8-13),
* a injustiça (Mt 5,20; Lc 22,25-26),
* o medo (Mc 6,50; Mt 28,10),
* os males da natureza (Mt 8,26),
* o sofrimento (Mt 8,17),
* o pecado (Mc 2,5),
* a morte (Mc 5,41-42; Lc 7,11-17),
* o demônio (Mc 1,25.34; Lc 4,13),...

Jesus luta para recuperar a bênção da vida (cf Gn 1,27-28; 12,3), perdida por causa do pecado (Gn 3,15-19). E a quem quer segui-lo, ele dá o poder de curar as doenças e de expulsar os maus espíritos(Mc 3,15; 6,7). Os discípulos e as discípulas devem assumir o mesmo combate em defesa da vida.

--------5. Jesus desmascara a falsidade dos grandes

Entre os males combatidos por Jesus estavam também as falsas lideranças. Jesus percebeu a mentalidade opressora das autoridades da época e a denunciou:
* Não teve medo de denunciar a hipocrisia de muitos líderes religiosos da época: sacerdotes, escribas e fariseus (Mt 23,1-36; Lc 11,37-52; 12,1; Mc 11,15-18).
* Condenou a pretensão dos ricos (Lc 6,24; 12,13-21; Mt 6,24; Mc 10,25). Não acreditava muito na sua conversão (Lc 16,29-31), embora admitisse que fosse possível pelo poder de Deus (Mt 19,26).
* Diante das ameaças do poder político, tanto dos judeus como dos romanos, Jesus não se intimidava. Mantinha uma atitude de grande liberdade (Lc 13,32;23,9; Jo 19,11;18, 23).
E aos que querem segui-lo, ele pede e ordena: "Entre vocês não seja assim!" (Lc 22,26). E recomenda que rezem ao Pai, para que mande operários em sua messe, isto é, que ajude o povo a ter boas lideranças (Mt 9,38).
É com esta prática em favor da vida, que Jesus se apresenta ao povo da sua terra, anda pela Galiléia e anuncia a Boa Notícia do Reino. É nestes gestos de solidariedade, que ele se revela Emanuel, Deus-conosco (Mt 1,23), e se torna, ele mesmo, uma Boa Notícia para o povo, sobretudo para os pobres e excluídos. É por causa desta Boa Notícia do Reino que Jesus entrou em conflito, tanto com a religião oficial da época como com a política do governo, e foi conde¬nado por ambos.
Por meio destes e outros gestos de denúncia, Jesus fazia estremecer as pilastras da religião oficial, incomodava os que estavam bem instalados, e atraía sobre si o ódio dos líderes religiosos da época.

--------6. Anunciar o Reino, despertar a vida

Tudo isto era o Reino de Deus acontecendo! O Reino já estava aí, no meio do povo (Lc 17, 20-21), mas ninguém o percebia. Jesus o percebeu e o revelou (Mt 16,1-3). Ele via o tempo maduro, o campo branco para a colheita (Jo 4,35). Pelas suas conversas e ações, despertava no povo uma força adormecida que o próprio povo não conhecia. Jesus desobstruiu o acesso à fonte dentro das pessoas, dentro do povo, e a água começou a jorrar (Jo 4,14). Assim, Jairo (Mc 5,36), a mulher do fluxo de sangue (Mc 5,34), o cego Bartimeu (Mc 10,52), o pai do menino epilético (Mc 9,23-24), tantos outros, através da fé em Jesus e em si mesmos, fizeram acontecer vida nova. Enquanto em Nazaré, por causa da incredulidade nada feito! (Mc 6,5-6) A Boa Nova do Reino era como um fertilizante que faz a semente da vida crescer. O Reino que estava escondido apareceu e o povo se alegrou.
Jesus estimulava as pessoas a se firmar e a ter confiança em si. Elogiou o escriba quando este chegou a entender que o amor a Deus e ao próximo eram o centro da Lei de Deus (Mc 12, 34). Animou a Jairo (Mc 5,36), confirmou a mulher do fluxo de sangue (Mc 5,34), encorajou os dois cegos (Mc 8,25; 10,49-52), revelou o valor da ação aparentemente nula da viúva (Mc 12,41-44). A atitude livre, liberta e libertadora de Jesus contaminava os discípulos e os confirmava em transgredir normas caducas. Por exemplo, eles colhem espigas, quando estão com fome, mesmo em dia de sábado (Mt 12,1). Não lavam as mãos antes de comer (Mc 7,5). Entram com Jesus nas casas dos pecadores e comem com eles (Mc 2,15-17). Não fazem jejum como era praxe entre os judeus (Mc 2,18), ...
Assim, a simpatia do povo por Jesus ia crescendo a ponto de provocar medo nos líderes (Mc 11,18. 32; 12,12; 14,2). O povo, antes tão submisso, crescia em consciência, escapava do controle da “grande disciplina” e criava dentro de si maior consciência e liberdade frente ao poder que o oprimia. Começava a ser ele mesmo, graças à Boa Nova de Jesus! A Boa Nova, porém, fez surgir uma nova divisão. Não a divisão causada por crenças e ritos, mas sim a divisão que tinha a ver com a prática da justiça e da verdade. Esta nova divisão fazia parte do anúncio da Boa Nova.
Tudo isto era o Reino chegando, a aurora nascendo, a fonte jorrando: “Não estão vendo?” (Is 43,19). Era o resultado das andanças e conversas de Jesus. Algo novo estava nascendo no povo, diferente, algo da vida, algo de Deus, que metia medo aos poderosos. Estes se organizaram para eliminar o perigo. “Já cresce no mundo o medo de ti, flor sem defesa!”

--------7. A Oração na vida de Jesus

Os primeiros cristãos, sobretudo Lucas, conservaram uma imagem de Jesus orante, que vivia em contato permanente com o Pai. De fato, a respiração da vida de Jesus era fazer a vontade do Pai (Jo 5,19). Em vários momentos ele aparece rezando, sobretudo nos momentos decisivos de sua vida:
* Aos doze anos de idade, lá no Templo, na Casa do Pai (Lc 2,46-50).
* Na hora de ser batizado e de assumir a missão, ele reza (Lc 3,21).
* Na hora de iniciar a missão, passa quarenta dias no deserto (Lc 4,1-2).
* Na hora da tentação, ele enfrenta o diabo com textos da Escritura (Lc 4,3-12).
* Na hora de escolher os doze Apóstolos, passa a noite em oração (Lc 6,12).
* Na hora de fazer levantamento da realidade e falar da sua paixão (Lc 9,18).
* Diante da revelação do Evangelho aos pequenos: “Pai eu te agradeço!” (Lc 10,21)
* Na cura do surdo-mudo, olhou para o céu e gemeu (Mc 7,34)
* Na hora de ressuscitar Lázaro: “Pai eu sei que sempre me ouves!” (Jo 11,41-42)
* Tem o costume de participar das celebrações nas sinagogas nos sábados (Lc 4,16)
* Participa das romarias ao Templo de Jerusalém nas grandes festas (Jo 5,1).
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30).
* Procura a solidão do deserto para rezar (Mc 1,35; Lc 5,16; 9,18).
* Rezando, desperta vontade de rezar nos apóstolos (Lc 11,1).
* Rezou por Pedro para ele não desfalecer na fé (Lc 22,32).
* A pedido das mães dá a bênção às crianças (Mc 10,16).
* Na crise sobe o Monte para rezar e é transfigurado enquanto reza (Lc 9,28).
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14).
* Na hora da despedida reza a oração sacerdotal (Jo 17,1-26).
* Ao sair da Ceia para o Horto reza salmos com os discípulos (Mt 26,30).
* Na agonia no horto ele reza:"Triste é minha alma" (Mc 14,34; cf Sl 42,5.6).
* Na angústia da agonia pede aos três amigos para rezar com ele (Mt 26,38).
* Na hora de ser pregado na cruz, pede perdão pelos carrascos (Lc 23,34).
* Na cruz, o lamento:"Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mc 15,34; Sl 22,2)
* Na hora da morte: "Em tuas mãos entrego meu espírito!" (Lc 23,46; Sl 31,6)
* Jesus morre soltando o grito do pobre (Mc 15,37).
Sua vida era uma oração permanente: "Eu a cada momento faço o que pai me mostra para fazer!" (Jo 5,19.30) A ele se aplica o que diz o Salmo: "Eu sou oração!" (Sl 109,4)















 
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